===== AISTHESIS ===== aisthesis: [[lexico:p:percepcao|percepção]], [[lexico:s:sensacao|sensação]] 1. A percepção é mais um [[lexico:c:complexo|complexo]] de problemas do que uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:q:questao|questão]]. Entra na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] como uma tentativa, de um [[lexico:m:modo|modo]] bastante modesto introduzida pelos primeiros physikoi, para [[lexico:e:explicar|explicar]] os processos fisiológicos envolvidos na percepção de um [[lexico:o:objeto|objeto]]. Foi elaborada através duma [[lexico:s:serie|série]] de soluções, principalmente em termos de contato, [[lexico:m:mistura|mistura]] ou penetração dos corpos envolvidos. Havia, por certo, algumas anomalias como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], o caso da [[lexico:v:visao|visão]] em que o contato estava aparentemente ausente mas a crise primeira e principal [[lexico:n:nao|não]] surgiu antes que os graus do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] fossem distinguidos e a percepção dos sentidos fosse separada de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:t:tipo|tipo]] mais seguro de percepção que pouco ou [[lexico:n:nada|nada]] tinha a [[lexico:v:ver|ver]] com as realidades ou processos sensíveis. A aisthesis achou-se envolvida nas dúvidas epistemológicas levantadas por [[lexico:h:heraclito|Heráclito]] e [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] e excluída de qualquer genuíno [[lexico:a:acesso|acesso]] à [[lexico:v:verdade|verdade]] (ver [[lexico:a:aletheia|aletheia]], [[lexico:d:doxa|doxa]], [[lexico:e:episteme|episteme]]). 2. Surgiram também outras transformações. A [[lexico:t:teoria|teoria]] da partícula ou somática em que se baseava a teoria da percepção dos physikoi começou a [[lexico:s:ser|ser]] substituída por teorias sobre a [[lexico:m:mudanca|mudança]] que tomaram como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida uma nova visão [[lexico:d:dinamica|dinâmica]] dos «poderes» das [[lexico:c:coisas|coisas]] (ver [[lexico:d:dynamis|dynamis]] e [[lexico:g:genesis|genesis]]). [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], que foi um dinamista, incorporou na sua [[lexico:m:metafisica|metafísica]] a [[lexico:a:analise|análise]] da mudança nos seres sensíveis e pela primeira vez a aisthesis tornou-se um [[lexico:p:problema-filosofico|problema filosófico]] [[lexico:b:bem|Bem]] como fisiológico. 3. Uma terceira [[lexico:a:alteracao|alteração]] importante manifestou-se pela [[lexico:c:crenca|crença]] crescente na [[lexico:n:natureza|natureza]] incorpórea da [[lexico:a:alma|alma]] ([[lexico:p:psyche|psyche]]), o [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:v:vida|vida]] nos seres e a [[lexico:f:fonte|fonte]] das suas [[lexico:a:atividades|atividades]] sensitivas. Qual era pois a [[lexico:r:relacao|relação]] [[lexico:g:geral|geral]] entre a alma imaterial e o [[lexico:c:corpo|corpo]] material e a relação específica entre aquela [[lexico:p:parte|parte]] ou [[lexico:f:faculdade|faculdade]] da alma conhecida por aisthesis e aquela parte do corpo que ela usava, o seu [[lexico:o:organon|Organon]]? O que fora outrora um simples contato entre corpos era [[lexico:a:agora|agora]] alargado a uma cadeia de [[lexico:c:causalidade|causalidade]] que começava com um corpo percebido e as suas qualidades e passava através de um termo-intermédio (isto ainda no intrincado [[lexico:p:problema|problema]] da visão), um [[lexico:o:orgao|órgão]] dos sentidos e uma faculdade dos sentidos, — para a alma que se tornava, pelo menos para aqueles que defendiam a [[lexico:i:imaterialidade|imaterialidade]] da alma, incorpórea em certa parte do [[lexico:p:processo|processo]]. 4. Finalmente, começando com o ataque de Parmênides à aisthesis e a sua defesa da episteme como única fonte genuína da verdade, já não era [[lexico:p:possivel|possível]] tratar o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ([[lexico:n:noesis|noesis]], [[lexico:p:phronesis|phronesis]]) apenas como uma [[lexico:f:forma|forma]] quantitativamente diferente da aisthesis, mas sim como sendo de [[lexico:e:especie|espécie]] diferente; e prestou-se [[lexico:a:atencao|atenção]] crescente tanto à faculdade como ao processo deste tipo [[lexico:s:superior|superior]] de percepção (ver [[lexico:n:nous|noûs]], noesis). 5. Estas são pois algumas das complexidades da [[lexico:p:problematica|problemática]] da aisthesis. A principal [[lexico:a:autoridade|autoridade]] antiga neste assunto, [[lexico:t:teofrasto|Teofrasto]], cujo tratado Sobre os sentidos é a fonte principal daquilo que sabemos das teorias da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], prefere abordar a questão dum ponto de vista [[lexico:f:fisico|físico]]. O parágrafo que abre a sua [[lexico:o:obra|obra]] distingue dois tipos de [[lexico:e:explicacao|explicação]] de [[lexico:c:como-se|como se]] processa a aisthesis. Uma [[lexico:e:escola|escola]] baseia-a na [[lexico:s:semelhanca|semelhança]] (homoion), a outra na [[lexico:o:oposicao|oposição]] (enantion) do [[lexico:s:sujeito|sujeito]] e da [[lexico:c:coisa|coisa]] conhecida. O primeiro [[lexico:g:grupo|grupo]] inclui — conforme o [[lexico:t:testemunho|testemunho]] de Teofrasto — Parmênides, [[lexico:e:empedocles|Empédocles]] e [[lexico:p:platao|Platão]]; o segundo, [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]] e Heraclito. 6. A [[lexico:r:referencia|referência]] a Parmênides é, evidentemente, à segunda parte do seu poema «A Via da [[lexico:a:aparencia|Aparência]]» (ver on, episteme). Sabemos que Parmênides tinha pouco [[lexico:r:respeito|respeito]] epistemológico pela aisthesis (cf. fr. 7), e não está de modo algum esclarecido que as teorias apresentadas na «Via da Aparência» sejam de [[lexico:f:fato|fato]] suas. Mas o que ressalta do resumo de Teofrasto (De sens. 3-4) é que «Parmênides» sustentou que a sensação e o [[lexico:p:pensar|pensar]] (phronesis) eram idênticos (fosse o que fosse que ele possa [[lexico:t:ter|ter]] acreditado o certo é que o genuíno Parmênides nunca defendeu tal coisa), e que o conhecimento brota da [[lexico:p:presenca|presença]] de apostos idênticos ([[lexico:e:enantia|enantia]]) no sujeito e no objecto do conhecimento, de tal modo que, por exemplo, até mesmo um cadáver, que esteja frio, pode percepcionar o frio. 7. Seja de [[lexico:q:quem|quem]] for, de fato, esta teoria, ela teve um [[lexico:e:efeito|efeito]] acentuado em Empédocles, que tinha uma teoria razoavelmente elaborada da sensação e que, ao contrário de Parmênides, levou a sério os sentidos (frg. 3, linhas 9-13). Para Empédocles as coisas materiais são formadas por misturas dos [[lexico:q:quatro-elementos|quatro elementos]] básicos (stoicheia) «que se atraem uns aos outros» (frg. 21, linhas 13-14). Cada objecto liberta uma corrente constante de emanações ([[lexico:a:aporrhoai|aporrhoai]], frg. 89) que entram nas passagens (poroi) que lhe correspondem nos sentidos apropriados e resulta a sensação (Teofrasto, De sens. 7; Aristóteles, De gen. et corr. II, 324b). Mas não é apenas uma questão de [[lexico:s:simetria|simetria]] entre a [[lexico:e:emanacao|emanação]] e o poro; o que se requer também é que o [[lexico:s:semelhante|semelhante]] entre em contato com o semelhante ao nível da [[lexico:s:substancia|substância]]: vemos [[lexico:t:terra|Terra]] com terra, [[lexico:f:fogo|fogo]] com fogo (Aristóteles, Metafísica 1000b). 8. Quando se trata do problema do pensamento (phronesis), Empédocles parece orientar-se no [[lexico:s:sentido|sentido]] de uma [[lexico:d:distincao|distinção]] entre ele e a sensação, mas ainda ao nível [[lexico:q:quantitativo|quantitativo]]. Para ele, como para os [[lexico:a:atomistas|atomistas]], é um tipo especial de sensação que ocorre no [[lexico:s:sangue|sangue]] (por isso o [[lexico:c:coracao|coração]] como sede do pensamento) visto que o sangue parece ser para Empédocles a mistura mais perfeita dos stoicheia (fr. 105, Teofrasto, De sens. 9). 9. Os atomistas, que tinham reduzido todas as coisas a átomos (atorna) e [[lexico:v:vazio|vazio]] ([[lexico:k:kenon|kenon]]), reduziram apropriadamente toda a sensação ao contato (Aristóteles, De sens. 442a), e explicaram o seu processo em termos nitidamente derivados de Empédocles. Também aqui os corpos libertam emanações, agora chamadas eidola (cf. [[lexico:a:alexandre-de-afrodisias|Alexandre de Afrodísias]], De sens. 56, 12), que se assemelham na forma à coisa de onde são emitidas. Estas entram no [[lexico:s:sensivel|sensível]], ou melhor, penetram entre os atoma do sensível, e resulta a sensação (Aécio IV, 8, 10). 10. Esta deve ter sido a teoria de Leucipo; mas no que se refere ao problema perturbador da visão, [[lexico:d:democrito|Demócrito]] parece ter acrescentado certos aperfeiçoamentos, de novo sugeridos por Empédocles. A [[lexico:i:imagem|imagem]] visual (emphasis) não ocorre no olho do contemplador, mas é devida ao contato no [[lexico:a:ar|ar]] entre o objeto e o contemplador. Uma vez formada, a emphasis regressa ao longo do ar e, sendo úmida, é admitida pelo olho úmido do contemplador (Teofrasto, De sens. 50; confrontar Empédocles em Aristóteles, De sens. 437b-438a). Esta explicação é [[lexico:i:interessante|interessante]] não apenas na [[lexico:m:medida|medida]] em que chama a atenção para o ar como [[lexico:m:meio|meio]] de percepção, mas também ao indicar, pela referência à umidade da emphasis e do olho, que Demócrito baseou de igual modo a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] da sensação, enquanto distinta da simples [[lexico:m:mecanica|mecânica]], no princípio de «semelhante conhece semelhante». 11. Teofrasto (ibid. 49) observa que os atomistas explicam a sensação em termos de mudança ([[lexico:a:alloiosis|alloiosis]]). Dificilmente esta pode ser mudança qualitativa tal como é compreendida no sentido aristotélico visto que os atomistas são conhecidos por terem reduzido todos os pathe de uma coisa à [[lexico:q:quantidade|quantidade]] (ver [[lexico:p:pathos|pathos]]); deve referir-se antes ao [[lexico:m:movimento|movimento]] dos atoma em colisão que perturbaram a [[lexico:p:posicao|posição]] dos átomos na [[lexico:p:pessoa|pessoa]] que percebe (confrontar Lucrécio III, 246-257). Todas as sensações se podem explicar em termos de várias formas e movimentos dos atoma em contato com a pessoa que percebe (Teofrasto, De sens. 66); aquilo que experenciamos como doçura e calor e cor não são mais do que impressões subjectivas (frg. 9; cf. [[lexico:n:nomos|nomos]], pathos). 12. Empédocles e os atomistas estão pois bem dentro daquilo que Teofrasto chama a [[lexico:t:tradicao|tradição]] do «semelhante conhece semelhante». A esta também pertence [[lexico:d:diogenes-de-apolonia|Diógenes de Apolônia]] para quem a [[lexico:a:arche|arche]] de todas as coisas era o [[lexico:a:aer|aer]], o qual serve também como o princípio de toda a cognição (Teofrasto, De sens. 39). O conhecimento acontece quando o ar [[lexico:e:exterior|exterior]] ao [[lexico:o:organismo|organismo]] é misturado com o ar que está no interior, sendo determinado, tanto pela pureza do ar que entra como pela difusão da mistura resultante, o tipo de cognição. Assim a phronesis resulta quando o ar inalado é mais [[lexico:p:puro|puro]] e a mistura de sangue e ar se espalha por [[lexico:t:todo|todo]] o corpo (ibid. 44; cf. as observações satíricas em Aristófanes, Nuvens 227-233). 13. À frente da tradição dos que se lhe opõem encontra-se Alcméon de Crotona, um discípulo [[lexico:p:primitivo|primitivo]] do [[lexico:p:pitagorismo|pitagorismo]] cujas opiniões conhecemos apenas por um sumário que não é acompanhado por grandes demonstrações ou pormenores (Teofrasto, De sens. 25-26). Ele defendeu que o semelhante é conhecido pelo dissemelhante, que o cérebro é a sede da psyque (ver [[lexico:k:kardia|kardia]]), e, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] mais importante, que há uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre aisthesis e phronesis. É esta diferença que distingue o [[lexico:h:homem|homem]] de todos os outros animais que assim funda uma [[lexico:e:etica|ética]] intelectualista, do mesmo modo que está na [[lexico:r:raiz|raiz]] da procura do mais elevado, a faculdade imaterial da alma, o [[lexico:l:logistikon|logistikon]] de Platão e a dianoetike de Aristóteles (ver psyche), e que é a progenitora do exaltado papel do noûs na [[lexico:h:historia|história]] subsequente da [[lexico:f:filosofia-grega|filosofia grega]]. Mas nós só sabemos que Alcmeon fez esta distinção; não sabemos com que bases, embora ela esteja quase de [[lexico:c:certeza|certeza]] ligada à bem conhecida crença pitagórica na alma imortal, (ver psyche, [[lexico:a:athanatos|athanatos]], [[lexico:p:palingenesia|palingenesia]]). 14. «O semelhante conhece o dissemelhante» aparece de novo em Anaxágoras e aqui baseia-se na [[lexico:p:prova|prova]] empírica de que as sensações, especialmente as sensações táteis, repousam no contraste, nós sentimos o frio graças ao nosso calor (Teofrasto, De sens. 27), numa teoria que está em [[lexico:p:perfeito|perfeito]] [[lexico:a:acordo|acordo]] com a doutrina de Anaxágoras de «uma porção de tudo em tudo» (ver [[lexico:s:stoicheion|stoicheion]]). [[lexico:a:alem|Além]] disso, toda a sensação, visto que é uma mudança, é acompanhada de [[lexico:d:dor|dor]] ([[lexico:p:ponos|ponos]]; confrontar [[lexico:h:hedone|hedone]]). 15. No [[lexico:t:teeteto|Teeteto]] (155d-157d) Platão apresenta uma teoria da sensação que é ostensivamente atribuída a [[lexico:p:protagoras|Protágoras]] ou a algum relativista heraclítico deste tipo. Mas uma vez que ela não é refutada na continuação e é coerente com outros passos dos [[lexico:d:dialogos|diálogos]], é possível que represente também os próprios pontos de vista de Platão sobre a sensação. Ela articula-se com o [[lexico:a:aspecto|aspecto]], frequentemente acentuado por Heráclito, de que entre as aistheta a única [[lexico:r:realidade|realidade]] é a mudança ou, para usar a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] de uma [[lexico:g:geracao|geração]] mais sofisticada, as aistheta não são realmente [[lexico:s:substancias|substâncias]] mas qualidades (ver pathos; Platão acentua o mesmo aspecto no [[lexico:t:timeu|Timeu]] 49b-50, e confrontar stoicheion); são poderes (dynameis) com a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de afetarem ([[lexico:p:poiein|poiein]]) as outras coisas ou serem afetados ([[lexico:p:paschein|paschein]]) por elas (Teeteto 156a). Pode igualmente ser verdade, como os primeiros pensadores tinham defendido que o [[lexico:k:kosmos|kosmos]] nada mais é do que [[lexico:k:kinesis|kinesis]] (loc. cit.), mas também aqui são possíveis posteriores aperfeiçoamentos. Mesmo neste [[lexico:e:estadio|estádio]] (ver Teeteto 181c) Platão é capaz de dividir a genérica kinesis em alteração (alloiosis) e locomoção. 16. É dentro deste contexto que a teoria platônica da sensação se desenvolve. A sua formulação mais genérica encontra-se no Phil. 33d-34a e Timeu 64a-d. A dynamis do [[lexico:a:agente|agente]] atua sobre o corpo do paciente. Se a parte afetada é uma parte imóvel na qual a terra predomina (osso, cabelo) a [[lexico:a:afeccao|afecção]] não se espalha; podia resultar dor ou [[lexico:p:prazer|prazer]] mas não a sensação. Mas se é [[lexico:m:movel|móvel]], como um dos órgãos dos sentidos, a [[lexico:a:afeicao|afeição]] espalha-se até alcançar a [[lexico:c:consciencia|consciência]] (phronimon) e resulta a sensação ([[lexico:c:comparar|comparar]] Timeu 43c, e ver psyche 17). 17. Podia parecer que estes dois passos sugerem que a percepção é uma pura passividade na pessoa que percebe; mas quando Platão se volta para uma [[lexico:d:discussao|discussão]] da visão ele volta a Empédocles e Demócrito por [[lexico:c:causa|causa]] da teoria que faz da imagem (emphasis) uma produção cooperativa do objecto e do sujeito. Ambos são fundamentalmente qualidades num [[lexico:e:estado|Estado]] de [[lexico:t:transformacao|transformação]] (alloiosis), mas uma vez postos ao alcance um do outro e com a ajuda da [[lexico:l:luz|luz]] do [[lexico:s:sol|sol]] (Timeu 45b), a dynamis da brancura no objecto e a [[lexico:q:qualidade|qualidade]] da luz no olho iniciam a locomoção e esta «dá [[lexico:o:origem|origem]]» à cor, que faz com que o olho veja e com que o objecto se torne uma coisa colorida (Teeteto 156c-e). Estas mudanças qualitativas, quando transmitidas à alma, conduzem à sensação (Timeu 45c-d, 81c-d). Este passo do Teeteto continua (157a) até retratar a [[lexico:m:moral|moral]] heraclítica: se o sujeito e o objecto não estão ao alcance um do outro não temos uma [[lexico:i:ideia|ideia]] verdadeiramente exata do que na verdade é a dynamis no objecto (para as mudanças em [[lexico:p:plotino|Plotino]] ver [[lexico:s:sympatheia|sympatheia]]). 18. Platão parece, contudo, expressar-se de uma maneira ambivalente. A sua teoria, assim descrita, é fortemente dinâmica na ligação que faz dos pathe com os poderes e na [[lexico:s:sugestao|sugestão]] de que a dynamis é uma qualidade [[lexico:r:real|real]] inerente ao objecto percebido (cf. Teofrasto, De sens. 60). Mas também já na sua outra explicação da gênesis pós-cósmica, havia reduzido todos os corpos aos sólidos geométricos e assim, em última análise, a sua explicação dos pathe sensíveis no Timeu 61d ss. tem laivos de uma espécie de [[lexico:a:atomismo|atomismo]] com a sua [[lexico:r:reducao|redução]] da qualidade à quantidade na [[lexico:o:ordem|ordem]] da forma ([[lexico:s:schema|schema]]), posição ([[lexico:t:thesis|thesis]]) e movimento (kinesis), neste caso, evidentemente, locomoção. 19. Aristóteles rejeita a [[lexico:i:influencia|influência]] atomística e heraclítica na teoria platônica da aisthesis. Posta nos seus termos mais gerais, a aisthesis é a recepção de um [[lexico:e:eidos|eidos]] sensível sem a sua [[lexico:m:materia|matéria]]. Aristóteles pode, como todos os seus predecessores, explicar a sensação em termos físicos e ele fá-lo subsequentemente ao aplicar a doutrina [[lexico:f:fisica|física]] do «meio». Mas primeiro ele situa todo o problema da cognição nas estruturas já enunciadas na Física e na Metafísica: o [[lexico:a:ato|ato]] ([[lexico:e:energeia|energeia]]) e a [[lexico:p:potencia|potência]] (dynamis). Percepcionar algo significa duas coisas: ser capaz de percepcionar algo quer se esteja ou não a percepcioná-lo, e o ato propriamente [[lexico:d:dito|dito]] de percepcionar a realidade. Por isso, qualquer faculdade sensível da alma, embora possa ser eidos ou [[lexico:o:ousia|ousia]] do órgão em que opera (tal como a psyche como um todo é a ousia do corpo inteiro; [[lexico:d:de-anima|De anima]] II, 412), é, não obstante, uma capacidade (dynamis) relacionada com o objecto perceptível: é potencialmente (dynamei) o que o objecto é na realidade ([[lexico:e:entelecheia|entelecheia]]; ibid. II, 418a). Isto é coerente com o que se disse da relação de energeia/dynamis no passo fulcral sobre este assunto na Metafísica: a energeia é anterior à dynamis (o objeto deve ser vermelho antes do olho «se tornar vermelho»; ver De [[lexico:a:anima|anima]] II, 425b) e a energeia termina como [[lexico:a:atualidade|atualidade]] na coisa transformada (a visão está no olho; ibid. III, 426a); ver energeia e Metafísica 1050a. 20. Assim pode descrever-se a sensação como uma alteração (alloiosis) pelo fato de [[lexico:r:representar|representar]] a passagem da potência à atualidade de uma das [[lexico:f:faculdades|faculdades]] dos sentidos. Desta maneira também Aristóteles pode resolver o problema do «semelhante conhece semelhante». Anaxágoras tinha [[lexico:r:razao|razão]] ao sugerir que «o semelhante conhece dissemelhante» uma vez que, de outro modo, não se podia efetuar a mudança; mas este é apenas o [[lexico:c:caminho|caminho]] inicial do processo; quando termina, o sujeito tornou-se, tal como o objecto, conhecido (De anima II, 417a-418a). 21. A explicação torna-se um pouco mais clara quando Aristóteles passa a descrever o processo da sensação em termos puramente físicos. Os corpos físicos têm qualidades perceptíveis que os diferenciam; estas são os «opostos» (enantia), quente-frio, úmido-seco, etc. O sujeito que percebe também os possui por ser corpóreo. Mas se é para percepcioná-los noutro, o órgão (organon) [[lexico:a:apropriado|apropriado]] tem de [[lexico:e:estar|estar]] num estado de equilíbrio em relação a estes extremos. Aristóteles vê a capacidade de percepcionar como uma espécie de meio ou estado proporcional ([[lexico:m:mesotes|mesotes]], [[lexico:l:logos|Logos]]) entre estes opostos extremos de tal modo que ela não é «realmente nenhum, mas é potencialmente ambos» (ibid. II, 423b-424a). Para a distinção de Aristóteles entre sensação e pensamento ver noesis; sobre o problema de um meio ([[lexico:m:metaxu|metaxu]]) para a sensação, ver sympatheia. 22. Aristóteles sente dificuldades ao querer distinguir o simples contato da sensação do tacto. As plantas vivem e por isso têm uma alma nutritiva (threptike psyche); i. é, são afetadas pelas coisas; absorvem a forma bem como a matéria das coisas que não elas próprias. Mas não percepcionam como os animais: a [[lexico:f:funcao|função]] da aisthetike psyche, a ousia distintiva dos animais, é receber a forma das coisas sensíveis sem a matéria (ibid. III, 424a-b) e assim estar sujeita aos consequentes pathe do [[lexico:a:apetite|apetite]] ([[lexico:o:orexis|orexis]]), prazer (hedone), e dor (ibid. II, 414b). Esta distinção desaparece em [[lexico:e:epicuro|Epicuro]]; um eidos sem [[lexico:h:hyle|hyle]] foi e continua a ser impensável na tradição atomista. A sensação é de novo reduzida ao contato e as diferentes sensações explicadas em termos de forma, organização e movimento dos atoma (ver Lucrécio II, 381-477, especialmente 434-435). Onde o contato não é [[lexico:i:imediato|imediato]], como na visão, a teoria das emanações é de novo invocada: os corpos emitem contornos de si próprios na forma dos eidola (os [[lexico:s:simulacro|simulacro]], de Lucrécio IV, 49-50) que, se o olho estiver para eles voltado, imprimem nele a sua configuração e desencadeiam a sensação (D. L., X,46-50). 23. Mas algumas das antigas posições democritianas parecem agora insustentáveis. Epicuro ainda sustenta a [[lexico:c:corporeidade|corporeidade]] [[lexico:e:essencial|essencial]] da alma (cf. D. L., X,63), mas a sua relação com o corpo foi redefinida (ver os comentários de Lucrécio III, 370 ss.) e adicionado um novo ingrediente, o misterioso «[[lexico:e:elemento|elemento]] sem [[lexico:n:nome|nome]]» (ver psyche 27 para ambos os desenvolvimentos). É o agrupamento [[lexico:o:organico|orgânico]] (ver [[lexico:h:holon|holon]]) dos átomos deste [[lexico:u:ultimo|último]] que transmite a sensação, a qual é o movimento dos atoma, aos outros constituintes da alma, e daí ao resto do corpo (Lucrécio III, 242-251, 271-272), processo que é possível apenas porque os átomos da alma estão contidos no invólucro (stegazon) do corpo (D. L., X, 64; ver gênesis). 24. Desde o [[lexico:t:tempo|tempo]] de Aristóteles aparece uma nova [[lexico:n:nota|nota]] afirmativa na [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] da aisthesis. Para Aristóteles os sentidos são incapazes de [[lexico:e:erro|erro]] em relação aos seus próprios objetos (De anima III, 428b), mas em Epicuro isto torna-se o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:c:criterio-de-verdade|critério de verdade]] ([[lexico:s:sexto-empirico|Sexto Empírico]], Adv. Math. VII, 9; D. L., X, 31; Lucrécio IV, 479; ver energeia, [[lexico:p:prolepsis|prolepsis]]). Entre os estoicos encontra-se idêntica [[lexico:o:opiniao|opinião]] acerca da verdade dos sentidos (SVF II, 78). Esta [[lexico:a:assercao|asserção]] da certeza fisiológica é, contudo, de pouco [[lexico:s:significado|significado]] visto que, para eles, como para Aristóteles, a verdade no seu sentido fundamental é uma função [[lexico:n:noetica|noética]]. É só quando as impressões (typoseis) nos órgãos dos sentidos são levadas, através do [[lexico:p:pneuma|pneuma]] (ver psyche) à faculdade [[lexico:r:racional|racional]] ([[lexico:h:hegemonikon|hegemonikon]]) e aí aceites (ver [[lexico:k:katalepsis|katalepsis]]) que a verdade primeira é possível; ver [[lexico:p:phantasia|phantasia]], noesis 16. 25. O processo da aisthesis faz exatamente parte do problema estoico mais amplo da materialidade dos pathe. O [[lexico:u:uso|uso]] que [[lexico:z:zenao|Zenão]] faz da [[lexico:f:frase|frase]] «[[lexico:i:impressao|impressão]] ([[lexico:t:typosis|typosis]]) sabre o hegemonikon» (SVF I, 58; Aristóteles usara a mesma [[lexico:e:expressao|expressão]]: De mem. 450a) provocou uma [[lexico:r:reacao|reação]] por parte de Crisipo o qual tentou disfarçar a materialidade da imagem, substituindo expressões como «alteração (heteroiosis) no hegemonikon» (Sexto [[lexico:e:empirico|Empírico]], Adv. Math. VII, 233, 237) ou reduzindo todos os pathe a juízos (kriseis; SVF III, 461; ver noesis 17). 26. A explicação que Plotino dá da sensação começa com a aceitação da [[lexico:p:premissa|premissa]] aristotélica de que a alma é um eidos do corpo ([[lexico:e:eneadas|Eneadas]] I, 1, 4; mas ver hyle II). O [[lexico:c:composto|composto]], i. e., o [[lexico:a:animal|animal]] tem sensação por causa da presença da alma (I, 1, 7), mas a própria alma é impassível (apathes): as suas faculdades são como reflexões de si própria que permitem às coisas que as possuem, agir (I, 1, 8). 27. A alma em si e de si é apenas capaz de [[lexico:a:atividade|atividade]] intelectual. Como é então conseguido o contacto com o sensível (aisthethon)? Este é função dos órgãos corpóreos do corpo (IV, 5, 1) que são capazes de servir de intermediários. O organon é a coisa material que é afetada (pathein), e o pathos do órgão representa o meio proporcional ([[lexico:m:meson|meson]] kata logon) entre o objecto sensível e o sujeito noético (IV, 4, 23; a linguagem faz lembrar Aristóteles mas o [[lexico:c:conceito|conceito]] deve nitidamente, como na verdade a própria [[lexico:n:nocao|noção]] de meio aristotélico, alguma coisa à noção platônica de [[lexico:l:limite|limite]]; cf. [[lexico:p:peras|peras]]). Deste modo os pathe que são corpóreos no órgão (e isto é um tipo de aisthesis), são noéticos quando recebidos pela alma (e isto é a verdadeira aisthesis; I, 1, 7). A função do órgão é pois converter as impressões (typoseis) sobre os sentidos em atividades (energeiai) anímicas de tal modo que a impassibilidade da alma possa ser mantida contra os estoicos (confrontar III, 6, 1). O processo de julgar estas formas inteligíveis transmitidas pelos sentidos é [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] [[lexico:d:discursivo|discursivo]] ([[lexico:d:dianoia|dianoia]]; I, 1, 9); ver noesis 19-20. Para a [[lexico:e:extensao|extensão]] do princípio da semelhança para além limites da aisthesis, ver sympatheis. aísthesis (he), sensação. Latim: [[lexico:s:sensus|sensus]]. Essa [[lexico:p:palavra|palavra]] tem dois sentidos: - faculdade de sentir: [[lexico:s:sensibilidade|sensibilidade]]; — ato de sentir: sensação. Além disso, contém não somente o que chamamos de sensação ([[lexico:c:conhecimento-sensorial|conhecimento sensorial]] de uma qualidade), mas também o que chamamos percepção (conhecimento [[lexico:s:sensorial|sensorial]] de um objeto). Aristóteles distingue nitidamente os dois sentidos: diz ele que o [[lexico:t:termo|termo]] pode significar sentir em potência (ter a faculdade) ou sentir em ato. No ato, constata-se uma [[lexico:a:acao|ação]] do semelhante sobre o semelhante: o olho vê o visível, o ouvido ouve o audível (De an., II, 5). [[lexico:e:esse|esse]] objeto que recebe a ação é o sentido: aisthetón. E dessa palavra que vem o francês esthétique ([[lexico:e:estetica|estética]]); é de uma filosofia do [[lexico:c:conhecimento-sensivel|conhecimento sensível]] que [[lexico:k:kant|Kant]] trata em sua [[lexico:e:estetica-transcendental|Estética transcendental]] (Transzendentale Aesthetik), primeira parte da [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da razão pura]]. Nos sistemas do conhecimento, a sensação ocupa o nível mais baixo. Na [[lexico:r:republica|República]] (VI, 508b, 511c) e no Teeteto (186b-187a), Platão opõe a sensação, conhecimento do corpo, à [[lexico:c:ciencia|ciência]], [[lexico:c:conhecimento-da-alma|conhecimento da alma]]. No início da Metafísica (A, 1), Aristóteles constata que a sensação é comum ao homem e ao animal, enquanto o raciocínio e a [[lexico:t:tecnica|técnica]] pertencem apenas ao homem. Por outro lado, para Epicuro, todos os nossos conhecimentos provêm das sensações; e o conhecimento sensorial permanece como [[lexico:c:criterio|critério]] de verdade em sua ordem, pois a razão não pode refutá-lo (D.L., X, 31-32). Em seu pequeno tratado Da sensação e da [[lexico:m:memoria|memória]] (IV, VI), Plotino aplica-se a mostrar, contrariando a concepção materialista de Aristóteles e dos estoicos, que a sensação não imprime nada no sujeito, mas é devida a uma faculdade ativa da alma. percepção dos sentidos