===== AIRESIS ===== gr. αἵρεσις, airesis = [[lexico:e:escolha|escolha]]; v. [[lexico:p:proairesis|proairesis]] Por isso, é [[lexico:n:necessario|necessário]] estabelecer a [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre «o [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] [[lexico:f:fundamento|fundamento]]» e «aquilo sem o que o fundamento [[lexico:n:nao|não]] podia [[lexico:s:ser|ser]] fundamento» [Fédon, 99b]. Esta diferença entre o [[lexico:p:plano|plano]] em que eclode o [[lexico:s:sentido|sentido]] que dá [[lexico:c:compreensao|compreensão]] a uma determinada [[lexico:s:situacao|situação]] (πρᾶξις ) é trazido à [[lexico:e:expressao|expressão]], formalmente, como sendo o [[lexico:b:bem|Bem]] (ἀγαθόν ) melhor, melhor de tudo (βέλτιον , βέλτιστον ). É a abertura para o bem (ἀγαθόν), uma abertura que tem o [[lexico:c:carater|caráter]] de uma escolha (αἵρεσις ), o que nos permite dar compreensão ao fundamento a partir do qual se obtém [[lexico:i:inteligibilidade|inteligibilidade]] para aquilo por que se passa, isto é, o fundamento para determinarmos o sentido daquilo que se passa «objectivamente». Só tendo em vista esta dissociação fundamental se obtém o [[lexico:h:horizonte|horizonte]] em [[lexico:q:questao|questão]] que nos permite levantar a [[lexico:p:pergunta|pergunta]] sobre o sentido responsável pela situação (πρᾶξις) humana. O «[[lexico:e:estar|estar]] [[lexico:a:agora|agora]] sentado aqui» é uma expressão que enuncia o que se passa objetivamente. E o que há de comum em todas as mais diversas situações, válido objetivamente para todas elas. Para estarmos sentados é necessário termos um [[lexico:c:corpo|corpo]] com as características naturais que nos permitam sentarmo-nos com ele em determinados sítios. Mas, por mais pormenorizada que seja a [[lexico:d:descricao|descrição]] do que se passa objetivamente, nós não conseguimos produzir nenhuma abertura para o sentido que [[lexico:a:anima|anima]] e dá compreensão a todas essas situações. Cada uma delas está inserida no plano [[lexico:u:universal|universal]] da [[lexico:v:vida|vida]], corresponde a «escolhas» de sentidos diferentes. São essas escolhas que de cada vez nos permitem dar inteligibilidade a diferentes situações, situações completamente heterogêneas e impermeáveis umas às outras, mesmo quando objetivamente se vê e descreve uma e a mesma «[[lexico:c:coisa|coisa]]». O plano da [[lexico:c:causa|causa]] responsável (αἰτία ), consignado no [[lexico:t:termo|termo]] «sentido compreensivo» (νοῦς [noûs]), é o que nos permite perceber [[lexico:o:o-que-e|o que é]] que ordena (διακοσμεῖ ) as nossas situações (πράξεις ). A escolha (αἵρεσις) do bem (ἀγαθόν) melhor, melhor de tudo (βέλτιον, βέλτιστον) é o que nos permite uma abertura ao plano de sentido que articula tudo aquilo que vemos objetivamente. É o sentido compreensivo (νοῦς) que tem de ser tido em vista (σκοπεῖ ), porquanto é por ele (ὑπὸ νοῦ ) que tudo é organizado. Isto é, se recuperarmos a [[lexico:f:formula|fórmula]] do [[lexico:g:gorgias|Górgias]], a organização (τάξις ) que constitui intrinsecamente cada situação não pode ser dada por aquilo que objetivamente acontece nem mesmo quando procuramos fazer um acompanhamento exaustivo, escrutinando e recenseando tudo aquilo que está [[lexico:d:dado|dado]] a [[lexico:v:ver|ver]]. A explicitação de tudo por quanto se passa tem antes de ser procurada num plano irredutível ao [[lexico:f:fato|fato]] constituído no [[lexico:m:mundo|mundo]], um plano que está numa [[lexico:d:dimensao|dimensão]] não coisal. É nesta constelação de problemas que se pode levantar a questão de [[lexico:s:saber|saber]] como é que se pode [[lexico:t:ter|ter]] um [[lexico:a:acesso|acesso]] [[lexico:a:autentico|autêntico]] ao sentido das mais diversas situações por que se passa. Ou seja, se no plano neutral «dos entes naturais» (φύσει ὄντα ) há uma dificuldade em anular o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista mimético a partir do qual lhes acedemos, maior será ela no plano da situação humana (πρᾶξις) por maioria de [[lexico:r:razao|razão]], sendo aqui a [[lexico:a:ambiguidade|ambiguidade]] levada ao [[lexico:e:extremo|extremo]]. Podemos também não perceber se o acesso que temos ao bem (ἀγαθόν) de cada situação é um acesso autêntico ou meramente mimético. Pode ser que não tenhamos um acesso ao [[lexico:m:modo|modo]] como é o ser de cada situação, mas tão-somente ao modo como nos parece que as [[lexico:c:coisas|coisas]] são. Como podemos ter acesso à organização (τάξις) e à [[lexico:e:excelencia|excelência]] (ἀρετή ) de cada situação? [CaeiroArete:73-75]