===== AGOSTINHO ===== [[lexico:s:santo|santo]] Agostinho (354-430) Agostinho de Hipona **Agostinho, Santo (354-430)** Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, Africa romana, hoje Argélia. Seu pai, Patrício, era pagão; sua mãe, Mônica, cristã que exerceu sobre ele uma constante e decisiva [[lexico:i:influencia|influência]]. Passou sua infância e adolescência entre Tagaste, Madaura e Cartago, entregue aos estudos clássicos, sobretudo à [[lexico:g:gramatica|gramática]] e à [[lexico:r:retorica|retórica]]. Sua trajetória vital e religiosa — inclusive de seus primeiros anos até sua [[lexico:c:conversao|conversão]] em 387 — está magistralmente traçada em Confissões. A [[lexico:l:leitura|leitura]] de Hortênsio de Cícero — [[lexico:o:obra|obra]] hoje desaparecida—deu novo [[lexico:s:sentido|sentido]] à [[lexico:v:vida|vida]] de Agostinho. Da gramática passou à [[lexico:i:investigacao|investigação]] filosófica, aderindo à [[lexico:s:seita|seita]] dos maniqueístas (374). Passou 10 anos em Cartago ensinando retórica e buscando a [[lexico:v:verdade|verdade]] e a [[lexico:f:felicidade|felicidade]] na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]], na [[lexico:a:amizade|amizade]] e nos vícios da [[lexico:c:carne|carne]]. Em 383 dirigiu-se a Roma disposto a seguir ali o ensino da retórica com alunos [[lexico:n:nao|não]] tão desobedientes e melhor preparados que os de Cartago. Depois de um ano, dirigiu-se a Milão para ensinar oficialmente retórica, cargo que lhe havia sido atribuído pelo prefeito Símaco. O [[lexico:e:exemplo|exemplo]] e a [[lexico:p:palavra|palavra]] do bispo [[lexico:a:ambrosio|Ambrósio]] persuadiram-no da verdade do cristianismo, e Agostinho se fez catecúmeno. Ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], encontra-se com a filosofia neoplatônica e, através dos livros de [[lexico:p:plotino|Plotino]], foi-se desprendendo das sombras e das [[lexico:i:ideias|ideias]] maniqueístas. Em 386, deixa o ensino e retira para Cassicciaco, perto de Milão, para meditar e escrever. Recebe o batismo em 25 de abril de 387. Convencido de que sua missão era difundir a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] cristã em sua pátria, [[lexico:a:africa|África]], volta a Tagaste onde é ordenou sacerdote. Em 395 é [[lexico:s:sagrado|sagrado]] bispo de Hipona. Toda a sua [[lexico:a:atividade|atividade]] posterior foi dirigida a defender e esclarecer os [[lexico:p:principios|princípios]] da [[lexico:f:fe|fé]] mediante uma investigação da qual a própria fé é mais o resultado que o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]]. Morre enquanto os vândalos invadiam o norte de Africa e assediavam a [[lexico:c:cidade|cidade]] de Hipona. A obra literária de Agostinho é imensa! Na patrologia do Migne ocupa 15 volumes (PL 3247). Como é que [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:h:homem|homem]], de saúde delicada, chegou a realizar tanto e a escrever tantos livros? Porque, [[lexico:a:alem|além]] de umas 225 cartas que nos restam de sua imensa [[lexico:c:correspondencia|correspondência]], e de mais de 500 sermões que chegaram até nós, sem contar cerca de outros 300 com os Tratados sobre o Evangelho de João e os Comentários aos Salmos que foram publicados, dispomos de um documento precioso que nos dá facilmente uma [[lexico:i:ideia|ideia]] de sua produção. De [[lexico:f:fato|fato]], três ou [[lexico:q:quatro|Quatro]] anos antes de sua [[lexico:m:morte|morte]], Agostinho dedicou-se a revisar, em Retractationes, todas as suas obras e sua correspondência. As Retractationes ou Revisiones dão conta de 93 de um total de 252 livros, uma produção extraordinariamente variada. Todos os assuntos têm nela sua [[lexico:r:representacao|representação]]: [[lexico:t:teologia|teologia]], filosofia, [[lexico:e:exegese|exegese]], [[lexico:m:moral|moral]], catequese e, se [[lexico:a:acaso|acaso]] fosse pouco, respostas a toda uma [[lexico:s:serie|série]] de perguntas que lhe faziam dos quatro cantos do [[lexico:m:mundo|mundo]]. Todos os gêneros se tocam: [[lexico:d:dialogos|diálogos]], comentários ou anotações de textos bíblicos, reproduções ou resumos de arquivos recolhidos por ele ou de discussões das quais havia participado, tratados como regras ou efemérides que, como A Cidade de [[lexico:d:deus|Deus]], foi provocada pelo saque de Roma em 410, convertem-se em obras mestras. —Dessa imensa obra selecionamos alguns dos temas favoritos de Agostinho: — "A procura da verdade é [[lexico:t:tarefa|tarefa]] de [[lexico:t:todo|todo]] homem; os graus do [[lexico:s:saber|saber]] são graus de nossa avaliação espiritual, que é a conquista de uma [[lexico:i:interioridade|interioridade]] cada vez mais profunda: interiorizar-se para transcender-se. Filosofar é captar a verdade no interior, isto é, alcançar o [[lexico:c:conhecimento-da-alma|conhecimento da alma]] e de Deus. Esse é todo o [[lexico:o:objeto|objeto]] da filosofia: o homem ([[lexico:e:eu|eu]], tu) e Deus" (Solilóquios, I, 7). — No [[lexico:p:principio|princípio]] da interioridade está contida a [[lexico:p:prova|prova]] da [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]]. Sabemos que para [[lexico:q:quem|quem]] julga não há [[lexico:n:nada|nada]] melhor do que aquele que acredita [[lexico:s:ser|ser]] o melhor. Existe no homem algo [[lexico:s:superior|superior]] ou melhor do que a [[lexico:r:razao|razão]]? Não, absolutamente (De libero arbitrio, II, 6-13). Pois [[lexico:b:bem|Bem]], se existe algo superior à razão, necessariamente será algo que transcende o homem e a razão. Mas isto não apenas supera o homem, senão que, ao ultrapassá-lo, supera também qualquer outra [[lexico:c:coisa|coisa]]; por isso, o que está além não pode ser mais do que Deus. Isto é, se existe "um ser superior ao [[lexico:e:espirito|espírito]], este ser é Deus". A passagem se faz da [[lexico:e:existencia|existência]] [[lexico:r:real|real]] do espírito para a existência do ser superior, ao espírito que é Deus. Comprovar a existência de Deus significa adquirir plena [[lexico:c:consciencia|consciência]] da [[lexico:p:presenca|presença]] da verdade em nosso [[lexico:p:pensamento|pensamento]] (auto-transcendência). — "[[lexico:e:energia|energia]] vital, energia sensitiva, energia intelectiva: isto é a [[lexico:a:alma|alma]] unida a seu [[lexico:c:corpo|corpo]]", que ela faz [[lexico:v:viver|viver]] e por [[lexico:m:meio|meio]] do qual sente e conhece as [[lexico:c:coisas|coisas]] corporais. A alma, inferior a Deus, dá vida ao que é inferior a ela mesma, isto é, a seu corpo. Que é, então, o homem? "Não é somente [[lexico:c:corpo-e-alma|corpo e alma]], mas o ser que se compõe de corpo e alma. A alma não é todo o homem, mas a [[lexico:p:parte|parte]] superior dele; o corpo também não é todo o homem, mas a sua parte inferior. Quando a alma e o corpo estão unidos, dá-se o [[lexico:n:nome|nome]] de homem, [[lexico:t:termo|termo]] que não perde cada um dos [[lexico:e:elementos|elementos]], quando se [[lexico:f:fala|fala]] deles separadamente" (A Cidade de Deus, XIII, 24,2). — "Si Deus est, unde malum?". Esse [[lexico:p:problema|problema]] atormentou Agostinho e, a princípio, o fez aceitar a solução biteísta do [[lexico:m:maniqueismo|maniqueísmo]], que depois rechaçou e refutou. O [[lexico:m:mal|mal]] não é mais que "[[lexico:c:corrupcao|corrupção]] do mundo, da [[lexico:b:beleza|beleza]] e da [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:n:natural|natural]]". Mas a corruptibilidade não é o mal em si, para o que seja [[lexico:n:necessario|necessário]] um princípio do mal. A [[lexico:n:natureza|natureza]] má é, pois, a natureza corrompida. O que não está corrompido é [[lexico:b:bom|Bom]]; mas, "por mais corrompida que esteja, é boa enquanto natureza, má enquanto corrompida" (De natura boni, c. 4, 6). As coisas, enquanto existem, são um bem. E todas as coisas que Deus criou, pelo [[lexico:p:proprio|próprio]] fato de [[lexico:e:existir|existir]], são um bem, mas não [[lexico:a:absoluto|absoluto]]. Portanto, o mal não é ser, mas deficiência; o mal é [[lexico:p:privacao|privação]], defectus boni. A [[lexico:i:imitacao|imitação]] do ser inerente à criatura é a [[lexico:c:causa|causa]] de suas doenças e sofrimentos em [[lexico:g:geral|geral]]: mal [[lexico:f:fisico|físico]]. O mal moral tem [[lexico:o:origem|origem]] na [[lexico:c:concupiscencia|concupiscência]], não em Deus (De lib. arb., I, 1-13/ — O mal não é, pois, [[lexico:l:liberdade|liberdade]], mas o mau [[lexico:u:uso|uso]] que podemos fazer dela. Deus nos deu liberdade para que pequemos. O [[lexico:t:tema|tema]] da liberdade e da [[lexico:g:graca|graça]], igual ao do mal, preencheu os últimos anos de Agostinho em controvérsia com o [[lexico:r:racionalismo|racionalismo]] de [[lexico:p:pelagio|Pelágio]] e do semipelagianismo. Antes da [[lexico:q:queda|Queda]], Adão "poderia não pecar", como "poderia não morrer". Depois do [[lexico:p:pecado|pecado]], a [[lexico:s:situacao|situação]] mudou, e Adão não pôde, em algum [[lexico:m:momento|momento]], não pecar. O resgate foi [[lexico:p:possivel|possível]] mediante a [[lexico:e:encarnacao|encarnação]] do [[lexico:v:verbo|verbo]] [[lexico:d:divino|divino]] em Cristo. A graça divina é, pois, sempre necessária para que o homem permaneça no bem e não faça mau uso de sua liberdade. Trata-se da graça [[lexico:a:atual|atual]], a qual impulsiona a [[lexico:v:vontade|vontade]] humana para querer o bem e para cumpri-lo. Com isto, Agostinho nega a liberdade? Não; a [[lexico:f:finalidade|finalidade]] da graça é potencializar a liberdade. A graça é a liberação do [[lexico:l:livre-arbitrio|livre-arbítrio]], assim como a [[lexico:i:iluminacao|iluminação]] é a [[lexico:l:libertacao|libertação]] da [[lexico:m:mente|mente]]. Da mesma [[lexico:f:forma|forma]] que o lume da graça não substitui a razão, a graça não anula a liberdade para fazer o bem, além de liberar o livre-arbítrio da [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de fazer o mal. —Fé e razão não somente não se opõem, como combinam. No [[lexico:a:ato|ato]] da fé, Agostinho distingue três momentos: a preparação da razão, o ato da adesão à verdade na qual se deve acreditar e a penetração [[lexico:r:racional|racional]] ou [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] da verdade acreditada. Toda a doutrina e a [[lexico:a:atitude|atitude]] de Agostinho diante da fé estão contidas nestas duas [[lexico:s:sentencas|sentenças]]: "intellige ut credas; crede ut intelligas". Não significam que com a inteligência ou a razão natural se obtenha, sem mais nem menos a fé, e sim que a razão se deve dispor à fé com atos racionais: "[[lexico:c:compreender|compreender]] para crer". Mas a verdadeira e plena inteligência do conteúdo da fé vem dada pela própria fé: "crer para poder compreender". — A última obra de Agostinho, A Cidade de Deus, é uma [[lexico:h:historia|história]] sapiencial, uma filosofia ou uma teologia da história. A vida do homem como [[lexico:i:individuo|indivíduo]] é dominada por uma [[lexico:a:alternativa|alternativa]] fundamental: viver segundo a carne ou viver segundo o espírito. A mesma alternativa domina a história da [[lexico:h:humanidade|humanidade]], constituída pela [[lexico:l:luta|luta]] de duas cidades ou reinos: o [[lexico:r:reino|reino]] da carne e o reino do espírito, a cidade terrena ou a cidade do [[lexico:d:diabo|diabo]], que é a [[lexico:s:sociedade|sociedade]] dos ímpios, e a cidade celestial ou cidade de Deus, que é a [[lexico:c:comunidade|comunidade]] dos justos. Toda a história dos homens no tempo é a história destas duas cidades. Muitos foram os qualificativos atribuídos a Agostinho. Talvez, o que melhor lhe convenha seja o de "campeão", mas não no sentido usual. Agostinho empreendeu uma árdua batalha difícil de se imaginar em nossos dias, especialmente no [[lexico:c:campo|campo]] do combate teológico contra as heresias. Contra o maniqueísmo primeiro, contra os donatistas depois; e, por [[lexico:f:fim|fim]], contra o [[lexico:p:pelagianismo|pelagianismo]]. E no centro dessa batalha está Deus. A melhor testemunha desse combate é o livro das Confissões: um itinerário, uma peregrinação tortuosa e atormentada do homem Agostinho em direção a Deus. "Porque nos fizeste, Senhor, para ti, e nosso [[lexico:c:coracao|coração]] anda sempre inquieto enquanto não se tranquilize e descanse em ti" (Confissões, 1,1). BIBLIOGRAFIA: Obras: PL 32-47; [[lexico:c:corpus|corpus]] Scriptorum ecclesiasticorum latinorum (CSEL), 12, 25, 28, 33, 34, 36, 40,41-44,51-53,57,58,60,63; Obras de san Agustin. [[lexico:t:texto|texto]] bilíngue em latim e castelhano (BAC, 39 volumes); Posidio, Vida de san Agustin, em Obras de san Agustin (BAC, I); Victorino Capánaga, San Agustin, semblanza biográfica; Confesiones. Versão de Pedro R. [[lexico:s:santidrian|Santidrián]]. Madrid 1990. [Santidrián]