===== AGÊNCIA ===== [[lexico:e:esse|esse]] é o [[lexico:p:problema|problema]] para o arqueólogo. Ele nos conduz ao nosso [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida: “Como o [[lexico:s:sujeito|sujeito]] pensante ou, se preferirem, o [[lexico:h:homem|homem]] enquanto sujeito e [[lexico:a:agente|agente]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] entrou na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]? E por quê?” Ou seja, nos termos derivados de [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]]: como e por que o sujeito se tornou, sob o [[lexico:n:nome|nome]] de “[[lexico:e:eu|eu]]”, sujeito de agência? Ou o “eu”, sob o nome de “sujeito”, gerente de agency’. Tal [[lexico:s:sintese|síntese]] [[lexico:n:nao|não]] era desejável, nem mesmo concebível, de um ponto de vista aristotélico. [[lexico:a:a-se|a se]] acreditar em uma [[lexico:c:critica|crítica]] recente de Descombes, ela não teria (não tem) mais [[lexico:r:razao|razão]] de [[lexico:s:ser|ser]] hoje. Segundo F. Neuf, um dos primeiros a [[lexico:t:ter|ter]] trabalhado como [[lexico:f:filosofo|filósofo]] sobre as gramáticas actanciais e as gramáticas narrativas, a [[lexico:c:categoria|categoria]] de sujeito não poderia de [[lexico:f:fato|fato]] “ser pensada a partir da agência, seja nas gramáticas casuais ou nas gramáticas descritivas” [Cf. F. Nef, “Logique de la grammaire et grammaire du sujet. Le Complément de sujet de Vincent Descombes”, s.p. Agradeço a F. Nef por me ter passado esse importante trabalho antes da publicação. Numerosas questões abordadas aqui são tratadas de um outro ângulo em F. Nef, Qu’est-ce que la métaphysique?]. “Subjetivação e agência não se equivalem”, por duas razões pelo menos: “não se pode [...] definir o sujeito a partir da agência”; o sujeito não pode ser identificado, sem mais, com o agente, pois “ele pode ser uma [[lexico:p:parte|parte]] do agente (ou do paciente?)” (como é o caso em frases como: “sua timidez assusta o menino” ou “minha raiva me humilha”). A própria [[lexico:d:distincao|distinção]] descombiana entre “[[lexico:f:frase|frase]] narrativa” (ou “[[lexico:p:proposicao|proposição]] narrativa”) e “[[lexico:p:proposicao-atributiva|proposição atributiva]]” não é pertinente [Cf. V. Descombes, Le Complément de sujet..., p. 67]. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] de fato uma frase narrativa? Alguns diriam: uma proposição atribuindo a [[lexico:a:acao|ação]]. Mas a [[lexico:q:quem|quem]]? A um sujeito? A um agente? F. [[lexico:n:nef|NEF]] responde: “não há [...] frases narrativas e frases atributivas”, como não há tampouco “triângulos euclidianos e triângulos não euclidianos”: há “duas gramáticas, narrativa e não narrativa, assim como há geometrias euclidianas e não euclidianas”. Como determinar “se uma frase atribui uma [[lexico:q:qualidade|qualidade]] (ou o que quer que seja) ou relata uma ação”? “Não há, de um lado, sujeito de [[lexico:a:atribuicao|atribuição]], no [[lexico:s:sentido|sentido]] aristotélico, e, de [[lexico:o:outro|outro]], sujeito de um [[lexico:r:relato|relato]], no sentido das gramáticas de Propp-Greimas”. V. Descombes projeta erroneamente a [[lexico:g:gramatica|gramática]] narrativa na gramática de atribuição. A “[[lexico:t:tese|tese]] central” que ele toma emprestada de Tesnière — “o sujeito é um complemento como os outros” – “não é verdadeiramente justificada”: “[...] ela é solidária a toda uma [[lexico:s:serie|série]] de pressupostos [...]: [[lexico:n:negacao|negação]] da [[lexico:e:existencia|existência]] de uma [[lexico:f:forma|forma]] [[lexico:l:logica|lógica]], [[lexico:r:reducao|redução]] do [[lexico:v:vago|vago]] a um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] sintático (a elipse), [[lexico:n:natureza|natureza]] dupla conexão predicativa, redução da maior parte dos problemas ontológicos a problemas gramaticais”. Para Nef, “todos esses pressupostos decorrem do sufocamento do [[lexico:l:logico|lógico]] e do metafísico sob o gramatical”. E insiste: *Para descartar a [[lexico:o:ontologia|ontologia]] dos acontecimentos em proveito de uma ontologia da [[lexico:s:substancia|substância]] entendida como [[lexico:s:suposito|supósito]] da predicação, Descombes elimina a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] [[lexico:s:semantica|semântica]] em proveito apenas da [[lexico:s:sintaxe|sintaxe]]. Mas é a forma lógica que dá a sintaxe lógica, a sintaxe [[lexico:u:universal|universal]], que não se confunde com o [[lexico:c:conceito|conceito]] de gramática relativa a uma [[lexico:l:lingua|língua]] [[lexico:p:particular|particular]] e que é apenas uma forma de sintaxe particular e superficial, como mostram [[lexico:r:russell|Russell]] e Carnap.* Gramática ou lógica? Chega-se aqui a uma encruzilhada. Segundo Nef, “não há categoria gramatical da ação”; há, ao contrário, uma “forma lógica de frases de ação” que contém “uma [[lexico:q:quantificacao|quantificação]] sobre os acontecimentos e um operador de ação, [[lexico:a:analogo|análogo]] a um operador [[lexico:m:modal|modal]]”. O ponto de vista correto sobre a ação deve, portanto, “combinar a quantificação sobre os acontecimentos e a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] modal da ação”. Muito [[lexico:b:bem|Bem]]. Mas [[lexico:f:falta|falta]] [[lexico:e:explicar|explicar]] como e por que o que não deveria ser é e foi. Como, em [[lexico:s:suma|suma]], a [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] (quer se trate, como se verá, da Subjecthood de H. Granger ou da Subjektität segundo [[lexico:h:heidegger|Heidegger]]) e a agência ou a agentividade se entrelaçaram historialmente para dar o que é [[lexico:c:chamado|chamado]] de “[[lexico:t:teoria|teoria]] clássica do sujeito”. Como, para dizer de forma ainda mais sumária, “sujeito” e “agência” puderam se tornar [[lexico:s:sinonimos|sinônimos]] para produzir o sujeito-agente. O [[lexico:b:belo|belo]] artigo de Étienne Balibar e Sandra Laugier sobre “Agency” no Vocabulaire européen des philosophies descreveu em todos os seus detalhes a [[lexico:c:constituicao|constituição]] da rede desse “[[lexico:t:termo|termo]] polissêmico” traduzido ora por “ação”, ora por “agente”, “agência”, “agir” [E. Balibar e S. Laugier, “Agency”, em VEP, pp. 26-32], ou mesmo, como em [[lexico:r:ricoeur|Ricoeur]], por “[[lexico:p:potencia|potência]] de agir”, e distinguiu cuidadosamente a agency como [[lexico:p:principio|princípio]] de ação e a agency como descentramento do sujeito, e, para concluir, os dois autores observam que era “[[lexico:i:impossivel|impossível]] estabelecer uma [[lexico:c:correspondencia|correspondência]], mesmo de forma muito global, entre o conjunto inglês action/agency/agente, o conjunto francês ação/agir/ator (e também o conjunto alemão Handlung/Wirkung/Kraft)” [Idem, ibidem, p. 31]. Os usos clássicos desse termo, em [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] e [[lexico:h:hume|Hume]], os modernos, em Davidson, e o corrente (Anscombe, Geach, Kenny), que recorre ao conceito de [[lexico:i:intencao|intenção]] para “definir a agency em termos estruturais, pela [[lexico:i:intencionalidade|intencionalidade]]” [Idem, ibidem, p. 29], mas também em [[lexico:a:austin|Austin]] que, ao contrário, “como [[lexico:w:wittgenstein|Wittgenstein]] em seus escritos sobre a filosofia da [[lexico:p:psicologia|psicologia]]”, exclui “a solução fácil demais que consistiria em definir a ação e [...] com mais forte razão ainda a agency (humana), pela [[lexico:p:presenca|presença]] de uma [[lexico:v:vontade|vontade]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]] ou subjetiva”, de um [[lexico:a:artista|artista]] nos bastidores [Idem, ibidem, p. 31], tudo foi [[lexico:d:dito|dito]], e bem dito, no VEP sobre a agency, sua [[lexico:a:ambivalencia|ambivalência]], sua tradutibilidade e sua intradutibilidade. Contudo, o problema nietzschiano, aumentado por sua dupla sobretradução franco-inglesa, ainda não está resolvido: o que é que liga, em profundidade, ao mais [[lexico:p:profundo|profundo]] da [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], semântica da ação e filosofia da subjetividade? Sobre esse ponto, pode-se ficar tentado a responder observando que o primeiro [[lexico:u:uso|uso]] filosófico do termo agency no século XVIII é “classicamente aristotélico”, que “opõe ação e [[lexico:p:paixao|paixão]], agente e paciente”. Mas [[lexico:n:nada|nada]] impõe nem explica aqui a intrusão do sujeito. O sentido é bem outro, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], a se levar em conta Balibar e Laugier, quando afirmam que, “graças ao [[lexico:t:trabalho|trabalho]] de diferentes expressões na língua inglesa”, agency permite à [[lexico:e:epoca|época]] contemporânea “[[lexico:p:pensar|pensar]] o agir não mais como categoria oposta à paixão, mas como ‘[[lexico:d:disposicao|disposição]]’ à ação”, disposição que “enfraquece a [[lexico:o:oposicao|oposição]] ativo/[[lexico:p:passivo|passivo]]” [Cf. E. Balibar e S. Laugier, op. cit., p. 26]. Não há disposição sem sujeito disposto – essa é, [[lexico:c:como-se|como se]] verá, o cerne da crítica averroísta da teoria alexandrina do [[lexico:i:intelecto|intelecto]]. Se a agência é uma disposição a agir, é preciso um sujeito do qual ela seja a disposição. Mas não seria isso um [[lexico:j:jogo|jogo]] com a [[lexico:p:palavra|palavra]] “disposição”? Ou melhor: haveria ali uma [[lexico:n:nocao|noção]] arqueologicamente precisa? Pode-se duvidar. No [[lexico:f:fim|fim]] das contas, não é esse o problema. Nossa [[lexico:t:tarefa|tarefa]] não é determinar quando o inglês subjecthood encontrou agency, supondo-se que jamais tenha encontrado; mas sim explicar o que, bem antes do século xvm inglês, instituiu os “conjuntos” inglês, francês e alemão, que, como nos dizem os autores do vep, não poderiam ser colocados “em correspondência”, mas que mesmo assim — e a própria [[lexico:t:traducao|tradução]] do [[lexico:t:texto|texto]] de Nietzsche é [[lexico:p:prova|prova]] disso – os filósofos insistem em sobrepô-los. Em termos arqueológicos, isso equivale prima facie a traçar os teoremas ou os [[lexico:p:principios|princípios]] de que se tirou a [[lexico:p:premissa|premissa]]: *m: toda ação supõe um sujeito que a realiza* no [[lexico:s:silogismo|silogismo]] gramatical nietzschiano . Esse traçado implica, por sua vez, descobrir as redes em que se formulam as noções de sujeito e de agente que intervém direta ou indiretamente, de uma forma original ou modificada, em tais teoremas.