===== ACÍDIA ===== (gr. akedia; lat. Acedia; in. Sloth; fr. Accidie; al. Acedie; it. Accidia). O [[lexico:t:tedio|tédio]] ou a [[lexico:n:nausea|náusea]] no [[lexico:m:mundo|mundo]] medieval: o torpor ou a inércia em que caíam os monges que se dedicavam à [[lexico:v:vida-contemplativa|vida contemplativa]]. Segundo [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], consiste no "entristecimento do [[lexico:b:bem|Bem]] [[lexico:d:divino|divino]]" e é uma [[lexico:e:especie|espécie]] de torpor espiritual que impede de iniciar o bem (S. Tb., II, II, q. 35, a. 1). Com o tédio, a acídia tem em comum o [[lexico:e:estado|Estado]] que a condiciona, que [[lexico:n:nao|não]] é de [[lexico:n:necessidade|necessidade]], mas de satisfação (V. tédio). Mas é com a lembrança do cortejo infernal das filiae acediae , que a [[lexico:m:mentalidade|mentalidade]] alegorizante dos Padres da Igreja plasmou magistralmente a alucinada constelação da acídia. Ela gera em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] malitia, o ambíguo e irrefreável ódio-amor pelo bem como tal, e rancor, a revolta da [[lexico:m:ma-consciencia|má consciência]] contra os que exortam ao bem; pusillanimitas, o “ânimo pequeno” e o [[lexico:e:escrupulo|escrúpulo]] que se retrai assustado diante da dificuldade e do empenho da [[lexico:e:existencia|existência]] espiritual; desperatio, a obscura e presunçosa [[lexico:c:certeza|certeza]] de [[lexico:e:estar|estar]] já condenado antecipadamente e o complacente aprofundamento na própria ruína, [[lexico:c:como-se|como se]] [[lexico:n:nada|nada]], nem sequer a [[lexico:g:graca|graça]] divina, pudesse salvar-nos; torpor, o obtuso e sonolento estupor que paralisa qualquer gesto que nos pudesse curar; e, por [[lexico:f:fim|fim]], evagatio mentis, a [[lexico:f:fuga|fuga]] do ânimo diante de si e o inquieto discorrer de [[lexico:f:fantasia|fantasia]] em fantasia [v. cogitatio] que se manifesta na verbositas, a tagarelice que gira inutilmente sobre si mesma, na curiositas, a insaciável sede de [[lexico:v:ver|ver]] por ver que se perde em possibilidades sempre novas, na instabilitas loci vel propositi e na importunitas mentis, a petulante incapacidade de estabelecer uma [[lexico:o:ordem|ordem]] e um [[lexico:r:ritmo|ritmo]] para o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:p:pensamento|pensamento]]. A [[lexico:p:psicologia|psicologia]] [[lexico:m:moderna|moderna]] esvaziou de tal [[lexico:f:forma|forma]] o [[lexico:t:termo|termo]] acedia do seu [[lexico:s:significado|significado]] original, transformando-a em um [[lexico:p:pecado|pecado]] contra a [[lexico:e:etica|ética]] capitalista do [[lexico:t:trabalho|trabalho]], que se torna difícil reconhecer, na espetacular personificação medieval do [[lexico:d:demonio|demônio]] meridiano e das suas filiae, a inocente [[lexico:m:mistura|mistura]] de [[lexico:p:preguica|preguiça]] e de desleixo que estamos acostumados a associar à [[lexico:i:imagem|imagem]] do acidioso. Contudo, como acontece com frequência, o mal-entendido e a minimização de um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]], longe de significar que isso nos é remoto e estranho, pelo contrário são indícios de uma proximidade tão intolerável a [[lexico:p:ponto|ponto]] de a devermos camuflar e reprimir. Isso é tão [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] que poucos se terão [[lexico:d:dado|dado]] conta de que na [[lexico:e:evocacao|evocação]] [[lexico:p:patristica|patrística]] das filiae acediae aparecem as mesmas [[lexico:c:categorias|categorias]] de que se serve [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] na sua famosa [[lexico:a:analise|análise]] da banalidade cotidiana e da caída na [[lexico:d:dimensao|dimensão]] anônima e inautêntica do “[[lexico:a:a-gente|a gente]]”, que acabou inspirando (na [[lexico:v:verdade|verdade]] nem sempre propositadamente) numerosas caracterizações sociológicas da nossa existência nas assim chamadas sociedades de [[lexico:m:massa|massa]]. No entanto, a concordância é até mesmo terminológica. Evagatio mentis torna-se a fuga e o di-vertimento em [[lexico:r:relacao|relação]] às possibilidades mais autênticas do [[lexico:s:ser-ai|ser-aí]]; verbositas é o “bate-papo” que em [[lexico:t:todo|todo]] lugar e sem cessar dissimula o que deveria desvelar, mantendo assim o ser-aí no [[lexico:e:equivoco|equívoco]]; curiositas é a “[[lexico:c:curiosidade|curiosidade]]”, que “busca [[lexico:o:o-que-e|o que é]] novo só para saltar mais uma vez para o que é ainda mais novo” e, sendo incapaz de cuidar de [[lexico:f:fato|fato]] do que se lhe apresenta, procura, através dessa “[[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] de parar” (a instabilitas dos Padres), a constante disponibilidade da [[lexico:d:distracao|distração]]. A ressurreição da [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] psicológica que a Idade Média havia cristalizado na [[lexico:t:tipologia|tipologia]] do acidioso corre o [[lexico:r:risco|risco]] de [[lexico:s:ser|ser]] algo mais do que um exercício acadêmico e, vista de perto, a máscara repugnante do demônio meridiano revela traços que nos são mais familiares do que poderíamos presumir. [AgambenE:24-27]