===== AÇÃO REFLEXA ===== (in. Reflex action; fr. Action réflexe; al. Reflex Bewegung; it. Azione riflessa). Em [[lexico:g:geral|geral]], uma resposta [[lexico:m:mecanica|mecânica]] (involuntária), [[lexico:u:uniforme|uniforme]] e adaptada, do [[lexico:o:organismo|organismo]] a um [[lexico:e:estimulo|estímulo]] [[lexico:e:externo|externo]] ou interno ao [[lexico:p:proprio|próprio]] organismo. Um [[lexico:r:reflexo|reflexo]] é, p. ex., a [[lexico:c:contracao|contração]] da pupila quando o olho é estimulado pela [[lexico:l:luz|luz]] ou a salivação pelo [[lexico:g:gosto|gosto]] ou pela vista de um alimento. Do reflexo assim entendido deve distinguir-se o arco reflexo, que é o dispositivo anatomofisiológico destinado a [[lexico:p:por|pôr]] o reflexo em [[lexico:a:acao|ação]]. Tal dispositivo é formado pelo nervo aferente ou centrípeto que sofre o estímulo, pelo nervo eferente ou centrífugo que produz o [[lexico:m:movimento|movimento]] e por uma conexão entre esses dois nervos, estabelecida nas células nervosas centrais. A importância filosófica dessa [[lexico:n:nocao|noção]], elaborada primeiramente pela [[lexico:f:fisiologia|fisiologia]] (séc. XVIII), depois pela [[lexico:p:psicologia|psicologia]], está no [[lexico:f:fato|fato]] de [[lexico:t:ter|ter]] sido assumida como [[lexico:e:esquema|esquema]] [[lexico:e:explicativo|explicativo]] causai da [[lexico:v:vida-psiquica|vida psíquica]]; inicialmente, apenas dos mecanismos involuntários (instintos, emoções, etc), depois, também das [[lexico:a:atividades|atividades]] superiores. Tudo o que, da [[lexico:v:vida|vida]] psíquica, pode [[lexico:s:ser|ser]] reportado à [[lexico:a:acao-reflexa|ação reflexa]], pode ser explicado causalmente a partir do estímulo [[lexico:f:fisico|físico]] que põe em movimento o arco reflexo. Em vista de sua uniformidade, essa ação é previsível a partir do estímulo: isso quer dizer que ela é causalmente determinada pelo próprio estímulo. Desse [[lexico:m:modo|modo]], a ação reflexa [[lexico:n:nao|não]] é senão o [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] pelo qual a [[lexico:c:causalidade|causalidade]] psíquica se insere na causalidade da [[lexico:n:natureza|natureza]], como [[lexico:p:parte|parte]] dela. Essas noções foram sendo elaboradas a partir da metade do séc. XIX, isto é, desde que a psicologia se constituiu como [[lexico:c:ciencia|ciência]] [[lexico:e:experimental|experimental]] (V. psicologia). De [[lexico:a:acordo|acordo]] com a [[lexico:o:orientacao|orientação]] atomista, própria da psicologia durante muito [[lexico:t:tempo|tempo]], ela procurou resolver os [[lexico:r:reflexos|reflexos]] complexos em reflexos [[lexico:s:simples|simples]], dependentes de circuitos nervosos elementares. A doutrina dos [[lexico:r:reflexos-condicionados|reflexos condicionados]], fundada por [[lexico:p:pavlov|Pavlov]] em bases experimentais (a partir de 1903; cf. os escritos de Pavlov recolhidos no volume I riflessi condizionati, Turim, 1950), obedece à mesma exigência e, aliás, contribuiu para reforçá-la durante algum tempo, fazendo nascer a [[lexico:e:esperanca|esperança]] de que os comportamentos superiores também pudessem ser explicados pela combinação de mecanismos reflexos simples. Um reflexo condicionado é aquele em que a [[lexico:f:funcao|função]] excitadora do estímulo que habitualmente o produz (estímulo [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]]) é assumida por um estímulo artificial (condicionado) ao qual o primeiro foi de algum modo associado. P. ex., se se apresenta um pedaço de [[lexico:c:carne|carne]] a um cão, [[lexico:e:esse|esse]] estímulo provoca nele salivação abundante. Se a [[lexico:a:apresentacao|apresentação]] do pedaço de carne foi muitas vezes associada com [[lexico:o:outro|outro]] estímulo artificial (p. ex., o som de uma campainha ou o aparecimento de uma luz), este segundo estímulo acabará por produzir, sozinho, o [[lexico:e:efeito|efeito]] do primeiro, isto é, a salivação do cão. É claro que a combinação e a sobreposição dos reflexos condicionados podem [[lexico:e:explicar|explicar]] numerosos comportamentos que, à primeira vista, não estão ligados a reflexos naturais ou absolutos. Mais recentemente, viu-se também no reflexo condicionado a [[lexico:e:explicacao|explicação]] do [[lexico:c:chamado|chamado]] [[lexico:c:comportamento|comportamento]] [[lexico:s:simbolico|simbólico]] do [[lexico:h:homem|homem]], isto é, do comportamento dirigido por signos ou [[lexico:s:simbolos|símbolos]], linguísticos ou de outra natureza. P. ex., o viajante que encontra na estrada um cartaz advertindo que a estrada está interrompida adiante, reage (p. ex., voltando) exatamente [[lexico:c:como-se|como se]] houvesse visto a interrupção da estrada. Aqui q [[lexico:s:simbolo|símbolo]] (o cartaz) substituiu, como estímulo artificial, o estímulo [[lexico:n:natural|natural]] (a vista da interrupção). Pavlov e muitos defensores da [[lexico:t:teoria|teoria]] dos reflexos condicionados mantiveram-se fiéis ao [[lexico:p:principio|princípio]] de que [[lexico:t:todo|todo]] reflexo que entra na composição de um reflexo condicionado é um mecanismo simples e infalível, realizado por determinado circuito anatômico. Por isso, a teoria do reflexo condicionado, na [[lexico:f:forma|forma]] exposta por Pavlov, inscreve-se nos limites daquilo que hoje se costuma chamar "teoria clássica do [[lexico:a:ato|ato]] reflexo", isto é, da [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] causai da ação reflexa. Todavia, um respeitável [[lexico:c:complexo|complexo]] de observações experimentais, feitas pela fisiologia e pela psicologia nos últimos decênios, a partir de 1920, aproximadamente, foi tornando cada vez mais difícil entender a ação reflexa segundo seu esquema [[lexico:c:classico|clássico]]. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], viu-se que a ação dos estímulos complexos não é previsível a partir da ação dos estímulos simples que o compõem, ou seja, os chamados reflexos simples combinam-se de modos imprevisíveis. Em segundo lugar, o próprio [[lexico:c:conceito|conceito]] de "reflexo elementar", isto é, do reflexo que entraria na composição dos reflexos complexos, foi julgado ilegítimo: e, com efeito, todos os reflexos observáveis são complexos e um reflexo "simples", isto é, não decomponível, é uma simples conjectura. Em [[lexico:t:terceiro|terceiro]] lugar, as mesmas reflexões sobre os reflexos condicionados demonstram a irregularidade e a imprevisibilidade de certas respostas: irregularidade e imprevisibilidade que Pavlov explicava com a noção de inibição, que, porém, é somente um [[lexico:n:nome|nome]] para indicar o fato de que certa [[lexico:r:reacao|reação]], que se esperava, não se verificou (Goldstein, Der Aufbau des Organismus, 1927; [[lexico:m:merleau-ponty|Merleau-Ponty]], Structure du comportement, 1949). Essas e outras ordens de [[lexico:o:observacao|observação]], apresentadas sobretudo pela [[lexico:p:psicologia-da-forma|psicologia da forma]] (cf., p. ex., Katz, Gestaltpsychologie, cap. III), mostram que o reflexo não pode ser entendido como uma ação devida a um mecanismo causal. Fala-se de reflexo sempre que se pode determinar, em face de certo estímulo, um [[lexico:c:campo|campo]] de reações suficientemente uniformes para serem previstas com alto [[lexico:g:grau|grau]] de [[lexico:p:probabilidade|probabilidade]]. As ação reflexas constituem, desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, uma [[lexico:c:classe|classe]] de reação, mais precisamente a que se caracteriza pela alta frequência de uniformidade das próprias reações. Mas com isso a noção de reflexo sai do esquema causai para entrar no esquema geral de [[lexico:c:condicionamento|condicionamento]] (V. [[lexico:c:condicao|condição]]).