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Além de material próprio este site reúne inúmeras referências a páginas e documentos encontrados na Internet, sobre os quais não temos o menor controle sobre sua disponibilidade. Assim como surgiram na Internet e tivemos a sorte de encontrá-los, podem desaparecer a qualquer momento, sem que em muitas das vezes possamos recuperá-los.

Recomendo meu livro aos interessados em uma reflexão filosófica sobre a técnica, e em particular a informática. Para ler o livro é necessário o leitor Kindle, seja individual ou seja para PC, Mac ou IPAD: AMAZON e AMAZON BRASIL
Responsáveis
João Cardoso de Castro
Filósofo e Mestre em Educação, UFRJ
Murilo Cardoso de Castro
Doutor em Filosofia, UFRJ
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Pode acontecer também que a história e a tradição venham a ser suavemente ajustadas em sistemas de recuperação de informação os quais servirão então como recursos para as necessidades inevitáveis de planejamento de uma humanidade ciberneticamente organizada. A questão é se o pensar também será encerrado no negócio de processamento de informações. (Prefácio a Wegmarken)
Heidegger
Se dirigindo à Kojima Takehico nos anos 1963-1965, Heidegger escreve: ‘pela presente carta, trata-se unicamente de reconhecer o seguinte fato: que é precisamente o olhar em direção da exploração, quer dizer em direção do próprio da tecnologização do mundo, que mostra um caminho em direção ao próprio do homem, que distingue sua humanidade no sentido da reivindicação que se faz disto através do Ser’.
Heidegger
Mas a pergunta nunca chega tarde e atrasada se nos sentirmos propriamente, como aqueles, cujas ações e omissões se acham por toda parte desafiadas e pro-vocadas, ora às claras ora às escondidas, pela com-posição. E sobretudo nunca chega tarde e atrasada a questão se e de que modo nós nos empenhamos no processo em que a própria com-posição vige e vigora. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 27)
Heidegger
É do verbo "we-sen", viger, que provém o substantivo vigência. Wesen, essência, em sentido verbal de vigência, é o mesmo que "wahren", durar e não apenas no sentido semântico, como também na formação fonológica. Já Sócrates e Platão pensaram a essência de uma coisa, como a vigência, no sentido de duração. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 33)
Heidegger
Quem reflete sobre este processo reconhecerá logo que a proposta, sempre repetida, da técnica dominada pelo homem procede de um modo de representação que se move apenas nas zonas fronteiriças daquilo que é atualmente. Superficial também é a observação que o homem de hoje em dia se tornou escravo das maquinas e dos aparelhos. Pois é uma coisa fazer tais observações, mas é totalmente outra sobre isto refletir e pesquisar, não somente em que medida o homem de nossa época está submetido à técnica, mas ainda em que medida ele deve se conformar à essência da técnica, em que medida se prenunciam, nesta conformidade, possibilidades mais originais tocando uma existência (Dasein ) livre do homem. A construção do mundo pela técnica e a ciência estende suas próprias pretensões até o enquadramento de todas as dis-ponibilidades (Beständ) que em um tal mundo se esforçam por vir a luz. (HEIDEGGER, Le principe de raison, 1957/1962, p. 75)
Heidegger
Conceber a sua essência enquanto o que dá à técnica moderna das máquinas a verdade e a necessidade internas; portanto não segundo um conceito (uma representação universal) do fato agora justamente dado que denominamos “técnica”; também não o que pensa na mesma direção, esta “técnica” enquanto fenômeno da “cultura”; pois a “cultura” mesma pertence a essência técnica concebida metafisicamente. Esta é a verdade da subjetividade, subjetividade concebida enquanto entidade do ente.
Consequência desta “técnica” essencial é o matemático das ciências, o “sistema”, a “dialética”.
Portanto também não buscar algo como o “elemento técnico” (de maneira meramente adequada aos aparelhos e ao funcionamento) em meio às ciências, à arte, à política, como se estas ainda fossem além disto propriamente algo diverso. O outro e o próprio é exatamente o “elemento técnico” compreendido metafisicamente, sim histórico-ontologicamente. A “técnica” assim compreendida encontra-se em conexão com a techne que emerge da physis e pressupõe e propaga o encobrimento desta última. (HEIDEGGER, Nietzsche. Metafísica e Niilismo, 2000, p. 156)
Heidegger
Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que vale consequentemente recolher e ter diante de si, aspirando assim fixa-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. “Weltbild”, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa, portanto uma ideia de mundo, mas o mundo ele mesmo apreendido como aquilo do qual se pode “ter ideia”. O ente em sua totalidade é, portanto, tomado agora de tal maneira que só é verdadeiramente e somente ente na medida que é detido e fixado pelo homem na representação e na produção. Com o advento da “Weltbild” se realiza uma intimação decisiva quanto ao ente em sua totalidade. O ser do ente é doravante pesquisado e descoberto no ser-representado do ente. (HEIDEGGER, Chemins qui ne mènent nulle part, 1949/1962, p. 117).
Heidegger
“Cinco são os modos, portanto, nos quais o ser-aí humano descerra o ente como atribuição e negação. E esses modos são: saber-fazer — na ocupação, na manipulação, na produção — ciência, circunvisão — intelecção — compreensão, suposição apreendedora.” [...] Todos esses diversos modos do aletheuein (desvelamento) encontram-se em uma conexão com o logos (discurso); tudo, menos o noûs (pensamento), é aqui meta logou (por meio do discurso); não há nenhuma circunvisão, nenhuma intelecção, nenhuma compreensão, que não seria fala. A techne (Arte) é o saber-fazer na ocupação, no manuseio, na produção, que pode se conformar em graus diversos, tais como, por exemplo no sapateiro e no alfaiata; ela não é o próprio manuseio e o próprio fazer, mas um modo de conhecimento, precisamente o saber-fazer que guia a poiesis (produção poética). A episteme (ciência) é o termo para aquilo que se designa como ciência. A phronesis é a circunvisão (intelecção), a sophia (sabedoria, o compreender propriamente dito), o noûs, o notar, que apreende o notado. (Heidegger, O Sofista, 2012 p.21-22)
Heidegger
A técnica não é igual à essência da técnica. Quando procuramos a essência de uma árvore, temos de nos aperceber de que aquilo que rege toda árvore, como árvore, não é, em si mesmo, uma árvore que se pudesse encontrar entre as árvores.
Assim também a essência da técnica não é, de forma alguma, nada de técnico. Por isso nunca faremos a experiência de nosso relacionamento com a essência da técnica enquanto concebermos e lidarmos apenas com o que é técnico, enquanto a ele nos moldarmos ou dele nos afastarmos. Haveremos sempre de ficar presos, sem liberdade, à técnica tanto na sua afirmação como na sua negação apaixonada. A maneira mais teimosa, porém, de nos entregarmos à técnica é considerá-la neutra, pois essa concepção, que hoje goza de um favor especial, nos torna inteiramente cegos para a essência da técnica. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 10)
Heidegger
O questionamento trabalha na construção de um caminho. Por isso aconselha-se considerar sobretudo o caminho e não ficar preso às várias sentenças e aos diversos títulos. O caminho é um caminho do pensamento. Todo caminho de pensamento passa, de maneira mais ou menos perceptível e de modo extraordinário, pela linguagem. Questionaremos a técnica e pretendemos com isto preparar um relacionamento livre com a técnica. Livre é o relacionamento capaz de abrir nossa pre-sença à essência da técnica. Se lhe respondermos à essência, poderemos fazer a experiência dos limites de tudo que é técnico. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 10)
Heidegger
Entendido assim como trazer e levar à vigência, o verbo “operar”, “wirken”, invoca um modo de o real se realizar, de o vigente viger e estar em vigor. Operar é, pois, trazer e levar à vigência, seja que, por si mesmo, algo traga e leve a si mesmo para a sua própria vigência, seja que o homem exerça este trazer e levar. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 42)
Heidegger
A lei inaparente da terra a resguarda na suficiência sóbria do nascer e perecer de todas as coisas, no círculo comedido do possível a que tudo segue e ninguém conhece. [...] Só a vontade que, a toda parte, se instala na técnica, esgota a terra até a exaustão, o abuso e a mutação do artificial. A técnica obriga a terra a romper o círculo maduro de sua possibilidade para chegar ao que já não é nem possível e, portanto, nem mesmo impossível. As pretensões e os dispositivos técnicos possibilitaram o êxito de muitas descobertas e inovações. Mas isso não prova, de modo algum, que as conquistas da técnica tenham tornado possível até mesmo o impossível. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 85)
Heidegger
Assim, no utensílio, que se dá e propõe no culto, regem e vigem quatro modos de dever e responder. Entre si são diferentes, embora pertençam um ao outro na unidade de uma coerência. O que os une antecipadamente? Em que se joga o jogo de articulação dos quatro modos de responder e dever? De onde provém a unidade das quatro causas? Pensando de maneira grega, o que significa responder e dever? (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 15)
Heidegger
Todo deixar-viger o que passa e procede do não-vigente para a vigência é poiesis, é produção. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 16)
Heidegger
O deixar-viger concerne à vigência daquilo que, na pro-dução e no pro-duzir, chega a aparecer e apresentar-se. A pro-dução conduz do encobrimento para o desencobrimento. Só se dá no sentido próprio de uma pro-dução, enquanto e na medida em que alguma coisa encoberta chega ao des-encobrir-se. Este chegar repousa e oscila no processo que chamamos de desencobrimento. Para tal, os gregos possuíam a palavra aletheia. Os romanos a traduziram por veritas. Nós dizemos "verdade" e a entendemos geralmente como o correto de uma representação. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 16)
Heidegger
A techne pertence à pro-dução, a poiesis, é, portanto, algo poético. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 17)
Heidegger
O conhecimento provoca abertura. Abrindo, o conhecimento é um desencobrimento. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 18)
Heidegger
A techne “des-encobre o que não se produz a si mesmo e ainda não se dá e propõe, podendo assim apresentar-se e sair, ora num, ora em outro perfil." (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p.18)
Heidegger
O desencobrimento que rege a técnica moderna é uma exploração que impõe à natureza a pretensão de fornecer energia, capaz de, como tal, ser beneficiada e armazenada. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 19)
Heidegger
Esta dis-posição, que explora a energia da natureza, cumpre um processamento, numa dupla acepção. Processa à medida que abre e ex-põe. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 19)
Heidegger
O desencobrimento que domina a técnica moderna, possui, como característica, o pôr, no sentido de explorar. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 20)
Heidegger
Em toda parte, se dis-põe a estar a postos e assim estar a fim de tornar-se e vir a ser dis-ponível para ulterior dis-posição. O dis-ponível tem seu próprio esteio. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 20)
Heidegger
Considerada como disponibilidade a máquina não é absolutamente autônoma e nem se basta a si mesma. Pois tem sua dis-ponibilidade exclusivamente a partir e pelo dis-por do dis-ponível. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 20)
Heidegger
O desencobrimento já se deu, em sua propriedade, todas as vezes que o homem se sente chamado a acontecer em modos próprios de desencobrimento. Por isso, des-vendando o real, vigente com seu modo de estar no desencobrimento, o homem não faz senão responder ao apelo do desencobrimento, mesmo que seja para contradizê-lo. Quando, portanto, nas pesquisas e investigações, o homem corre atrás da natureza, considerando-a um setor de sua representação, ele já se encontra comprometido com uma forma de desencobrimento. Trata-se da forma de desencobrimento da técnica que o desafia a explorar a natureza, tomando-a por objeto de pesquisa até que o objeto desapareça no não-objeto da dis-ponibilidade. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 22)
Heidegger
Quem realiza a exploração que des-encobre o chamado real, como dis-ponibilidade? Evidentemente, o homem. Em que medida o homem tem este des-encobrir em seu poder? O homem pode, certamente, representar, elaborar ou realizar qualquer coisa, desta ou daquela maneira. O homem não tem, contudo, em seu poder o desencobrimento em que o real cada vez se mostra ou se retrai e se esconde. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 21)
Heidegger
Sendo desencobrimento da dis-posição, a técnica moderna não se reduz a um mero fazer do homem. Por isso, temos de encarar, em sua propriedade, o desafio que põe o homem a dis-por do real, como dis-ponibilidade. Este desafio tem o poder de levar o homem a recolher-se à dis-posição. Está em causa o poder que o leva a dis-por do real, como dis-ponibilidade.
Chamamos de cordilheira (Gebirg) a força de reunião que desdobra, originariamente, os montes num mar de morros e atravessa o conjunto de suas dobras.
Chamamos de ânimo (Gemüt) a força originária de reunião, donde se desprendem os modos em que nos sentimos de bom e de mau humor, neste ou naquele estado de alma.
Chamamos aqui de com-posição (Ge-stell) o apelo de exploração que reúne o homem a dis-por do que se des-encobre como dis-ponibilidade. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 23)
Heidegger
Se a física moderna tem de contentar-se, de maneira crescente, com o caráter imperceptível de suas representações, esta renúncia ao concreto da percepção sensível não é decisão de nenhuma comissão de cientistas. É uma imposição da regência da com-posição que exige a possibilidade de se dis-por da natureza, como dis-ponibilidade. Por isso, apesar de ter abandonado a representação de objetos que, até há pouco, era o único procedimento decisivo, a física moderna nunca poderá renunciar à necessidade de a natureza fornecer dados, que se possa calcular, e de continuar sendo um sistema disponível de informações. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 26)
Heidegger
A essência da técnica moderna repousa na com-posição. A com-posição pertence ao destino do desencobrimento. Estas afirmações dizem algo muito diferente do que a frase tantas vezes repetida: a técnica é a fatalidade de nossa época, onde fatalidade significa o inevitável de um processo inexorável e incontornável. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 28)
Heidegger
Do mesmo modo, em que a natureza, expondo-se, como um sistema operativo e calculável de forças pode proporcionar constatações corretas mas é justamente por tais resultados que o desencobrimento pode tornar-se o perigo de o verdadeiro se retirar do correto.
O destino do desencobrimento não é, em si mesmo, um perigo qualquer, mas o perigo.
Se, porém, o destino impera segundo o modo da com-posição, ele se torna o maior perigo, o perigo que se anuncia em duas frentes. Quando o descoberto já não atinge o homem, como objeto, mas exclusivamente, como disponibilidade, quando, no domínio do não-objeto, o homem se reduz apenas a dis-por da dis-ponibilidade - então é que chegou à última beira do precipício, lá onde ele mesmo só se toma por dis-ponibilidade. E é justamente este homem assim ameaçado que se alardeia na figura de senhor da terra. Cresce a aparência de que tudo que nos vem ao encontro só existe à medida que é um feito do homem. Esta aparência faz prosperar uma derradeira ilusão, segundo a qual, em toda parte, o homem só se encontra consigo mesmo. Heisenberg mostrou, com toda razão, que é assim mesmo que o real deve apresentar-se ao homem moderno. Entretanto, hoje em dia, na verdade, o homem já não se encontra em parte alguma, consigo mesmo, isto é, com a sua essência. O homem está tão decididamente empenhado na busca do que a com-posição pro-voca e ex-plora, que já não a toma, como um apelo, e nem se sente atingido pela ex-ploração. Com isto não escuta nada que faça sua essência ex-sistir no espaço de um apelo e por isso nunca pode encontrar-se, apenas, consigo mesmo. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 30)
Heidegger
Embora na sua expansão como parâmetro espaço e tempo jamais admitam o encontro face a face de seus elementos, é precisamente quando espaço e tempo predominam como parâmetros para toda representação, produção e recomendação, ou seja, como parâmetros do mundo da técnica moderna, que eles alcançam de forma extraordinária o prevalecer da proximidade, ou seja, a proximitude dos campos do mundo. Quando tudo se dispõe em intervalos calculados e justamente em virtude da calculação ilimitada de tudo, a falta de distância se espraia e isso sob a forma de uma recusa da proximidade de uma vizinhança dos campos do mundo. Na falta de distância, tudo se torna indiferente em consequência da vontade de asseguramento e apoderamento uniforme e calculador da totalidade da terra. A luta pela dominação da terra entrou em sua fase decisiva. A exploração total da terra mediante o asseguramento de sua dominação só se instaura quando se conquista fora da terra a posição extrema para o seu controle. A luta por essa posição consiste no cálculo constante onde todas as referências entre todas as coisas se converte na ausência calculável de distância. Isso constitui a desertificação do en-contro face a face dos quatro campos de mundo, a recusa de proximidade. Nessa luta pela dominação da terra, espaço e tempo alcançam seu predomínio máximo enquanto parâmetros. Todavia, o seu poder irrefreado só é possível porque espaço e tempo já e ainda são outra coisa do que os bem conhecidos parâmetros. 0 caráter de parâmetro oblitera a essência do espaço e do tempo. 0 parâmetro encobre sobretudo a relação de sua essência com a essência vigorosa da proximidade. Mesmo sendo relações tão simples, elas se mantêm inacessíveis para o pensamento calculador. Onde elas se mostram, os hábitos representacionais impedem a sua visão. (HEIDEGGER, A caminho da linguagem, 1959/2003, p. 168)
Heidegger
A essência da técnica moderna põe o homem a caminho do de-sencobrimento que sempre conduz o real, de maneira mais ou menos perceptível, à dis-ponibilidade. Pôr a caminho significa: destinar. Por isso, denominamos de destino a força de reunião encaminhadora, que põe o homem a caminho de um desencobrimento. É pelo destino que se determina a essência de toda história. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 27)
Heidegger
Todo desencobrimento pertence a um abrigar e esconder. Ora, o que liberta é o mistério, um encoberto que sempre se encobre, mesmo quando se desencobre. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 28)
Heidegger
O fundamento e o âmbito essencial da técnica moderna é essa vontade, que em toda intenção e apreensão, em tudo o que se quer e alcança, sempre quer somente a si mesma, e a si mesma armada com a possibilidade sempre crescente de poder-querer-a-si. A técnica é a organização e o órgão da vontade de vontade. Os grupos humanos, os povos e nações, os grupos e indivíduos não passam, em toda parte, de queridos dessa vontade, e não sua origem e seus senhores, mas são quase tão-somente cumpridores de má vontade. (HEIDEGGER, Heráclito, 1994/1998, p. 205)
Heidegger
Até agora pensamos a palavra "essência" no sentido comum. Na linguagem da escola, "essência" diz aquilo que alguma coisa é, em latim, quid. A quidditas, a quididade, responde à pergunta pela essência de alguma coisa. O que, por exemplo, convém e pertence a todas as espécies de árvores; carvalho, faia, bétula, pinheiro, é uma mesma arboridade, o mesmo ser-árvore. As árvores reais e possíveis caem todas sob esta arboridade, como seu gênero comum, o "universal", no sentido de genérico. Será, então, que a com-posição, a essência da técnica, constitui o gênero comum de tudo que é técnico? Se fosse assim, a turbina a vapor, o transmissor de rádio, o ciclotrônio seriam uma com-posição! Ora, o termo, "com-posição", não diz, aqui, um equipamento ou qualquer tipo de aparelho. Diz, ainda menos, o conceito genérico destas dis-ponibilidades. As máquinas e aparelhos são tampouco casos e espécies de com-posição, como o operador na mesa de controle ou o engenheiro no escritório de planejamento. Tudo isto, sendo peças, dis-ponibilidades e operadores de dispositivos, pertence, cada qual à sua maneira, à com-posição, mas esta, a com-posição, nunca é a essência da técnica, entendida, como um gênero. A com-posição é um modo destinado de desencobrimento, a saber, o desencobrimento da exploração e do desafio. Um e outro modo destinado é o desencobrimento da pro-dução, da poiesis. Esses modos não são, porém, espécies que, justapostas, fossem subsumidas no conceito de desencobrimento. O descobrimento é o destino que, cada vez, de chofre e inexplicável para o pensamento, se parte, ora num des-encobrir-se pro-dutor ora num des-encobrir-se ex-plorador e, assim, se reparte ao homem. O de-sencobrimento ex-plorador tem a proveniência de seu envio no des-cobrimento pro-dutor, ao mesmo tempo em que a com-posição de-põe num envio do destino a poiesis.
Assim, a com-posição se torna a essência da técnica, por ser destino de um desencobrimento, nunca, porém, por ser essência, no sentido de gênero e essentia. Se levarmos em conta essa conjuntura, algo de espantoso nos atinge: a própria técnica exige de nós pensar o que, em geral, se chama de "essência", num outro sentido. Mas em qual? (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 32)
Heidegger
Não sendo nada de técnico a essência da técnica, a consideração essencial do sentido da técnica e a discussão decisiva com ela têm de dar-se num espaço que, de um lado, seja consanguíneo da essência da técnica e, de outro, lhe seja fundamentalmente estranho.
A arte nos proporciona um espaço assim. Mas somente se a consideração do sentido da arte não se fechar à constelação da verdade, que nós estamos a questionar. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 37).
Heidegger
O ser-em, ao contrário, significa uma constituição de ser da presença e é um existencial. Com ele, portanto, não se pode pensar no ser simplesmente dado de uma coisa corpórea (o corpo vivo do humano) "dentro" de um ente simplesmente dado. O ser-em não pode indicar que uma coisa simplesmente dada está, espacialmente, "dentro de outra" porque, em sua origem, o "em" não significa de forma alguma uma relação espacial desta espécie; "em" deriva-se de innan-, morar, habitar, deter-se; "an" significa: estou acostumado a, habituado a, familiarizado com, cultivo alguma coisa; possui o significado de colo, no sentido de habito e diligo. O ente, ao qual pertence o ser-em, neste sentido, é o ente que sempre eu mesmo sou. A expressão "sou" conecta-se a "junto"; "eu sou" diz, por sua vez: eu moro, detenho-me junto... ao mundo, como alguma coisa que, deste ou daquele modo, me é familiar. Como infinitivo de "eu sou", isto é, como existencial, ser significa morar junto a, ser familiar com. O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da presença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 2006 p. 100)
Heidegger
Heidegger em um ensaio sobre o poesia de Rilke (Chemins qui ne mènent nulle part, 1949/1962, p. 366): “Esta representação presenta. Mas este presente é presente em uma representação que tem o caráter do cálculo. [...] A produção calculante da técnica é um "fazer sem imagem" (Nona Elegia). Diante da imagem visível das coisas, a auto-imposição deliberada e seu projetos colocam a proposição do esquema, que não é senão uma ficção calculada.”
Heidegger
Rigorosamente, um instrumento nunca ‘é’. O instrumento só pode ser o que é num todo instrumental que sempre pertence a seu ser. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 116)
Heidegger
De acordo com o que foi dito, o ser no mundo não é uma "propriedade" que a pre sença às vezes apresenta e outras não, como se pudesse ser igualmente com ela ou sem ela. O homem não "é" no sentido de ser e, além disso, ter uma relação com o mundo, o qual por vezes lhe viesse a ser acrescentado. A pre sença nunca é "primeiro" um ente, por assim dizer, livre de ser em que, algumas vezes, tem gana de assumir uma "relação" com o mundo. Esse assumir relações com o mundo só é possível porque a pre sença, sendo no mundo, é como é. Tal constituição de ser não surge do fato de, além dos entes dotados do caráter da pre sença, ainda se darem a depararem com ela outros entes, os simplesmente dados. Esses outros entes só podem deparar se "com" a pre sença na medida em que conseguem mostrar se, por si mesmos, dentro de um mundo. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 103-104)
Heidegger
Nem um retrato ôntico dos entes intramundanos nem a interpretação ontológica do ser destes entes alcançariam, como tais, o fenômeno do "mundo". Em ambas as vias de acesso para o ser "objetivo" já se "pressupõe", e de muitas maneiras, o "mundo". (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 111)
Heidegger
"Mundanidade" é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser no-mundo. Este, nós o conhecemos como uma determinação existencial da pre sença. Assim, a mundanidade já é em si mesma um existencial. Quando investigamos ontologicamente o "mundo", não abandonamos, de forma alguma, o campo temático da analítica da pre sença. Do ponto de vista ontológico, "mundo" não é determinação de um ente que a pre sença em sua essência não é. "Mundo" é um caráter da própria pre sença. Isto não exclui o fato de que o caminho de investigação do fenômeno "mundo" deva seguir os entes intramundanos e seu ser. A tarefa de "descrição" fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 111-112)
Heidegger
O mundo ele mesmo não é um ente intramundano, embora o determine de tal modo que, ao ser descoberto e encontrado em seu ser, o ente intramundano só pode se mostrar porque mundo "se dá". (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 121).
Heidegger
O sinal não está apenas à mão junto com outro instrumento mas, em sua manualidade, o mundo circundante se torna, cada vez, explicitamente acessível à circunvisão. O sinal está onticamente à mão e, enquanto esse instrumento determinado, desempenha, ao mesmo tempo, a função de alguma coisa que indica a estrutura ontológica de manualidade, totalidade referencial a mundanidade. Ai se enraíza o privilégio desse manual em meio ao mundo circundante ocupado pela circunvisão. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 127)
Heidegger
Esse contexto de fundamentação dos modos de ser-no-mundo constitutivos do conhecimento do mundo evidencia que, ao conhecer, a pre-sença adquire uma nova posição ontológica, no tocante ao mundo já sempre descoberto. Esta nova possibilidade ontológica pode se desenvolver autonomamente, pode se tornar uma tarefa e, como ciência, assumir a direção do ser-no-mundo. Todavia, não é o conhecimento quem cria pela primeira vez um "commercium" do sujeito com um mundo a nem este commercium surge de uma ação exercida pelo mundo sobre o sujeito. Conhecer, ao contrário, é um modo da pre-sença fundado no ser-no-mundo. É por isso também que, como constituição fundamental, o ser-no-mundo requer uma interpretação preliminar. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 109)
Heidegger
A demonstração fenomenológica do ser dos entes que se encontram mais próximos se faz pelo fio condutor do ser no mundo cotidiano, que também chamamos de modo de lidar no mundo a com o ente intramundano. Esse modo de lidar já sempre se dispersou numa multiplicidade de modos de ocupação. Como se viu, o modo mais imediato de lidar não é o conhecimento meramente perceptivo e sim a ocupação no manuseio e uso, a qual possui um "conhecimento" próprio. A questão fenomenológica vale, sobretudo, para o ser dos entes que vêm ao encontro nessa ocupação. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 114-115)
Heidegger
[...] Só um ser que fala, quer dizer que pensa, pode ter uma mão e realizar em uma manipulação o trabalho da mão.
[...] Mas os gestos da mão transparecem na linguagem, e isto na maior pureza quando o homem fala em se calando. No entanto, é na medida que o homem fala que ele pensa e não o contrário, como a Metafísica ainda crê. Cada movimento da mão em cada uma de suas obras é conduzido pelo elemento do pensar, ele se comporta neste elemento. Toda obra da mão repousa no pensar. Por isto o pensar ele mesmo é o para o homem o mais simples, e no entanto o mais difícil trabalho da mão, quando vem o momento no qual ele deve ser expressamente realizado. (HEIDEGGER, Qu’appelle-t-on penser ?, 1954/1959, p. 90)
Heidegger
O termo “técnica” deriva do grego technon. Este designa o que pertence à techne. Este termo tem, desde a aurora da antiga língua grega, o mesmo significado que episteme – quer dizer vigiar uma coisa, compreende-la. [...]
Dito de modo elíptico e sucinto: techne não é um conceito do fazer, mas um conceito do saber. techne e portanto técnica querem dizer que algo é com-posto (gestellt) no manifesto, acessível e o disponível, e é pro-posto enquanto presente em sua posição (Stand). Ora na medida onde reina na técnica o princípio do saber, ela-mesma fornece a partir dela mesma a possibilidade e a exigência de uma configuração particular do seu próprio saber ao mesmo tempo em que se oferece e se desenvolve uma ciência que lhe corresponde. Isto é um acontecimento, e este acontecimento advém apenas uma só e única vez no curso de toda a história da humanidade: no interior da história do ocidente europeu, no início ou melhor como início desta época que se denomina os Tempos Modernos. (HEIDEGGER, Langue de tradition et langue technique, 1989/1990, p. 22-23)
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Isto significa nada menos que: a técnica é codeterminante no conhecer. Isto só pode ser porque seu caráter mais próprio possui ele mesmo algo de um traço de conhecimento. (HEIDEGGER, Langue de tradition et langue technique, 1989/1990, p. 22-23)
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Aquilo que é hoje em dia, é marcado pela dominação da essência da técnica moderna, dominação que, em todos os domínios da vida, já se manifesta por características com nome múltiplos, tais como funcionalização, perfeição, automação, burocratização, informação. (HEIDEGGER, Questions I et II, 1968, p. 286)
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É sobre os princípios tecno-calculadores desta transformação da língua- como dizer em língua como mensagem e como simples produção de sinais - que repousam a construção e a eficácia dos computadores gigantes. O ponto decisivo para a nossa reflexão atém-se a isto: são as possibilidades técnicas da máquina que prescrevem como é que a língua pode e deve ainda ser língua. O gênero (Art) e o estilo da língua determinam-se a partir das possibilidades técnicas de produção formal de sinais, produção que consiste em executar uma série contínua de decisões sim-não com a maior rapidez possível. A natureza dos programas que podem servir de entradas para o computador, entradas com as quais podemos, como se diz, alimentá-lo, regula-se sobre o tipo de funcionamento da máquina. O modo da língua é determinado pela técnica. Mas o contrário não é verdadeiro? O modelo da máquina não se regula sobre os objectivos linguageiros, como, por exemplo, os da tradução? Mas mesmo neste caso os objectivos da linguagem são, antecipadamente e por princípio, ligados à máquina, que exige sempre a univocidade dos sinais e da sua sucessão. É por isso que um poema, por princípio, não pode ser programado.
Com a dominação absoluta da técnica moderna cresce o poder - tanto a exigência como a eficácia - da língua técnica adaptada para cobrir a latitude de informações mais vasta possível. É porque se desenvolve em sistemas de mensagens e de sinalizações formais que a língua técnica é a agressão mais violenta e mais perigosa contra o carácter próprio da língua, o dizer como mostrar e fazer aparecer o presente e o ausente, a realidade no sentido mais lato.
Mas porquanto a relação do homem, tanto quanto ao ente que o rodeia e o sustenta como ao ente que é ele próprio, repousa sobre o fazer aparecer, sobre o dizer falado e não falado, a agressão da língua técnica sobre o carácter próprio da língua é ao mesmo tempo uma ameaça contra a essência mais própria do homem.
Se, avançando no sentido da dominação da técnica que determina tudo, temos a informação pela forma mais alta da língua por causa da sua univocidade, da sua segurança e da sua rapidez na comunicação de informação e de directivas, então o resultado é a concepção correspondente do ser-homem e da vida humana. Assim lemos em Norbert Wiener, um dos fundadores da cibernética, disciplina avançada da técnica moderna: «Ver o mundo inteiro e dar ordens ao mundo inteiro é quase a mesma coisa que estar em todo o lado». E noutro lugar: «Viver activamente significa viver com a informação apropriada».
No horizonte de representação da língua, seguindo a teoria da informação, interpreta-se igualmente de maneira técnica uma actividade como a de aprender. Assim escreve Norbert Wiener: «Aprender é fundamentalmente uma forma de retroacção pela qual o modelo de comportamento é modificado pela experiência que precede». «A retroacção... é um carácter absolutamente universal das formas de comportamento». «A retroacção é a condução de um sistema pela reintrodução no próprio sistema dos resultados do trabalho cumprido».
Uma máquina executa o processo técnico de retroacção, definido como circuito de regulação, assim como - senão de maneira tecnicamente mais reflectida -o sistema de mensagens da língua humana. É por isso que a última etapa, se não for a primeira, de todas as teorias técnicas, é explicar «que a língua não é uma capacidade reservada ao homem, mas uma capacidade que partilha até um certo grau com as máquinas que desenvolveu». Uma tal proposição é possível se se admite que o próprio da língua está reduzido, isto é, limitado à produção de sinais, ao envio de mensagens.
No entanto, também a teoria da informação vai, necessariamente, de encontro a um limite. Porque «cada tentativa de tornar unívoca uma parte da língua (pela sua formalização num sistema de sinais) pressupõe o uso da língua natural, mesmo não sendo ela unívoca» (C. Fr. von Weizsäcker, A língua como informação). A língua «natural», quer dizer, a língua que não foi por princípio inventada e imposta pela técnica, é sempre conservada e permanece, por assim dizer, como pano-de-fundo de toda a transformação técnica. (HEIDEGGER, Langue de tradition et langue technique, 1989/1990, p. 38-42, tradução portuguesa)
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Característica, extensão, comparação, lugar, tempo, são determinações que, em geral, são ditas da coisa. Estas determinações indicam em que perspectiva as coisas se nos mostram, quando, no enunciado, nos dirigimos a elas e falamos delas, indicam os caminhos-do-olhar nos quais olhamos as coisas e a partir dos quais elas se nos mostram. Mas, na medida em que essas determinações são sempre colocadas sobre a coisa, a coisa é, de um modo geral e sempre, dita com elas, como aquilo que já está presente. Aquilo que, em geral, é dito sobre cada coisa, a este «dito em direção à coisa» e no qual a universalidade e a coisalidade da coisa se determinam, os Gregos chamam kategoria (kata-agorenein). Mas o que é dito deste modo não visa senão o ser-de-um-certo-modo, o ser-extenso, o estar-em-relação, o estar-ali, o estar-agora, que é próprio das coisas enquanto entes. Não podemos trazer para diante do olhar, nem muitas vezes, nem com a penetração suficiente, este estado-de-coisas agora evidenciado, nomeadamente o facto de que as determinações que constituem o Ser do ente e, portanto, da própria coisa, retiram o seu nome do enunciado acerca da coisa. Este nome para as determinações-de-ser não é uma designação como qualquer outra, mas, nesta designação das determinações-de-ser como modos da enunciabilidade, reside uma interpretação particular do Ser. O facto de, desde há muito tempo, as determinações do Ser serem chamadas, no pensamento ocidental, «categorias» é a expressão mais nítida do que já acentuámos: o facto de a estrutura da coisa estar em relação com a estrutura do enunciado. O facto de outrora e ainda hoje a doutrina escolar acerca do Ser do ente, a «ontologia», colocar como objectivo próprio a fixação de uma «doutrina das categorias», exprime a interpretação originária do Ser do ente, quer dizer, da coisalidade da coisa, a partir do enunciado. (HEIDEGGER, Que é uma coisa ?, 1987/1992, p. 70)
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O enunciado é um modo de legein - dirigir-se a qualquer coisa, enquanto qualquer coisa. Isto significa: acolher qualquer coisa como tal. Ter qualquer coisa como qualquer coisa e entrega-la como tal, diz-se, em latim, reor, ratio: daí ratio se ter tornado a tradução de logos. O simples enunciado dá, ao mesmo tempo, a forma fundamental em que visamos a coisa e pensamos algo acerca dela. A forma fundamental do pensamento e, em consequência, o pensar, é o fio condutor da determinação da coisalidade da coisa. As categorias determinam, em geral, o Ser dos entes. Perguntar pelo Ser dos entes, pelo que é e como é, em geral, o ente, é a primeira tarefa da filosofia; perguntar deste modo é filosofia do mais alto nível, é primeira e autêntica filosofia, proto philosophia, prima philosophia.
Eis o que é essencial: o pensamento como simples enunciar, o logos, a ratio, é o fio condutor para a determinação do Ser do ente, quer dizer, para a determinação da coisalidade da coisa. «Fio condutor» tem, aqui, o seguinte significado: os modos de enunciabilidade conduzem o olhar em direcção à determinação da presença., quer dizer, em direcção ao Ser dos entes. (HEIDEGGER, Que é uma coisa ?, 1987/1992, p. 71)
Heidegger
Não é necessário ser profeta para reconhecer que as modernas ciências que estão se instalando serão, em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica que se chama cibernética.
Esta ciência corresponde à determinação do homem como ser ligado à práxis na sociedade. Pois ela é a teoria que permite o controle de todo o planejamento possível e de toda organização do trabalho humano. A cibernética transforma a linguagem num meio de troca de mensagens. As artes tornam-se instrumentos controlados e controladores da informação.
O desdobramento da Filosofia cada vez mais decisivamente nas ciências autônomas e, no entanto, interligadas, é o acabamento legítimo da Filosofia. Na época presente a Filosofia chega a seu estágio terminal. Ela encontrou seu lugar no caráter científico com que a humanidade se realiza na práxis social. O caráter específico desta cientificidade é de natureza cibernética, quer dizer técnica. Provavelmente desaparecerá a necessidade de questionar a técnica moderna, na mesma medida em que mais decisivamente a técnica marcar e orientar todas as manifestações no Planeta e o posto que o homem nele ocupa.
As ciências interpretarão tudo o que em sua estrutura ainda lembra a sua origem na Filosofia, segundo as regras de ciência, isto é, sob o ponto de vista da técnica. As categorias das quais cada ciência depende para a articulação e delimitação da área de seu objeto, a compreendem de maneira instrumental, sob a forma de hipóteses de trabalho.
A verdade destas hipóteses de trabalho não será apenas medida nos efeitos que sua aplicação traz para o progresso da pesquisa. A verdade cientifica é identificada com a eficiência destes efeitos.
Aquilo que a Filosofia, no transcurso de sua história, tentou em etapas, e mesmo nestas de maneira insuficiente, isto é, expor as ontologias das diversas regiões do ente (natureza, história, direito, arte), as ciências o assumem como tarefa sua. Seu interesse dirige-se para a teoria dos, em cada caso necessários, conceitos estruturais do campo de objetividade aí integrado.
"Teoria" significa agora: suposição de categorias a que se reconhece apenas uma função cibernética, sendo-lhe negado todo sentido ontológico. Passa a imperar o elemento racional e os modelos próprios do pensamento que apenas representa e calcula. (HEIDEGGER, Heidegger, in Coleção Pensadores, 2000b, p. 97)
Heidegger
Com as três referidas caracterizações da ciência moderna - ciência de factos, ser experimental e ciência que mede – não encontramos o traço fundamental da nova posição do saber. O traço fundamental deve residir naquilo que, fornecendo-lhe a medida, determina completamente, de um modo igualmente originário, o movimento-de-fundo da ciência enquanto tal: trata-se da relação-de-trabalho com as coisas e do projecto metafísico da coisalidade da coisa. De que modo devemos conceber este traço fundamental?
Atribuímos um nome ao carácter-de-fundo, que procuramos, da moderna atitude do saber, ao dizermos que a nova pretensão do saber é matemática. É de Kant a seguinte afirmação, muitas vezes citada, mas menos vezes compreendida: «Mas eu digo que, em cada teoria particular acerca da natureza, só se pode encontrar uma autêntica ciência, na medida em que se encontrar nela a matemática.» (Prefácio a Primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza). (HEIDEGGER, Que é uma coisa ?, 1987/1992, p. 74-75)
Heidegger
O pensar sobre o pensar se desenvolve no ocidente como lógica. Esta recolheu conhecimentos particulares sobre uma maneira particular de pensar. Apenas recentemente que se fez frutificar cientificamente estes conhecimentos da lógica, e isto em uma ciência particular que se denomina “logística”. Ela é a mais especial de todas as ciências especiais. A logística é tomada atualmente em vários lugares, antes de mais nada nos países anglo-saxões, como única forma possível de filosofia estrita, porque seus resultados e seus métodos guardam uma relação segura e imediata com a construção do mundo técnico. (HEIDEGGER, Qu’appelle-t-on penser ?, 1954/1959, p. 33-34)
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O pensamento é um reconhecimento? Mas que quer dizer aqui “reconhecimento”? Ou bem o reconhecimento repousa no pensamento? Mas o que quer dizer aqui “pensamento”? A memória não é um reservatório para aquilo que pensou o pensamento, ou bem o pensamento repousa ele mesmo na memória? Qual a relação entre reconhecimento e memória? Colocando estas questões nós nos movemos no espaço daquilo que acede à linguagem no verbo “pensar” e que aflora nele. (...) O “Gedanc” equivale quase à alma (Gemüt). “muot” – o coração. Pensar, no sentido da palavra inicialmente falante, aquele do “Gedanc”, é quase ainda mais original que este pensar do coração que Pascal, séculos mais tarde, já como contragolpe ao pensar matemático, buscou reconquistar.
O pensar, compreendido no sentido de “representações” lógicas e racionais, se revela, em relação ao “Gedanc” inicial, como uma restringência e um empobrecimento da palavra de tal ordem que mal se pode imaginar a grandeza. (HEIDEGGER, Qu’appelle-t-on penser ?, 1954/1959, p. 146)
Heidegger
Todas as disciplinas científicas estão sob o domínio do positivismo, a tendência para o positivismo, onde “positivo” é compreendido em termos de fatos, e fatos são compreendidos em termos de uma interpretação particular da realidade. Fatos são fatos apenas se podem ser enumerados, pesados, medidos, e experimentalmente determinados. (HEIDEGGER, History of the Concept of Time, 1979/1985, p. 15)
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A nossa expressão “o matemático” tem sempre dois sentidos: significa, em primeiro lugar, o que se pode aprender do modo já referido e somente desse modo; em segundo lugar, o modo do próprio aprender e do proceder. O matemático é aquilo que há de manifesto nas coisas, em que sempre nos movimentamos e de acordo com o qual as experimentamos como coisas e como coisas de tal gênero. O matemático é a posição-de-fundo em relação às coisas na qual as coisas se nos pro-põem, a partir do modo como já nos foram dadas, têm de ser dadas e devem ser dadas. O matemático é, portanto, o pressuposto fundamental do saber acerca das coisas. (HEIDEGGER, Que é uma coisa ?, 1987/1992, p. 81-82)
Heidegger
A “matemática” só se torna decisiva para a metafísica com a mudança da veritas para o certitudo. A matemática não é contudo aí apenas um modelo de conhecimento “maximamente rigoroso”. Ao contrário, o elemento matemático – o estar-certo – caracteriza o modo fundamental do ser enquanto a re-presentacionalidade.
O problema é que este papel da matemática precisa fracassar logo que o estar-certo enquanto subjetividade torna-se mais nítido para si e a autoconsciência, sobretudo enquanto incondicionada, mostra-se como um âmbito, cuja dimensionalidade nunca é alcançada através do elemento “matemático” de um modo sintônico com sua essência. Este elemento permanece na circunscrição da grandeza e isto significa da consciência imediata e de seu cálculo. (HEIDEGGER, Nietzsche. Metafísica e Niilismo, 2000, p. 160-161)
Heidegger
E, no entanto, como teoria, no sentido de tratar, a ciência é uma elaboração do real terrivelmente intervencionista. Precisamente com este tipo de elaboração, a ciência corresponde a um traço básico do próprio real. 0 real é o vigente que se ex-põe e des-taca em sua vigência. Este destaque se mostra, entretanto, na Idade Moderna, de tal maneira que estabelece e consolida a sua vigência, transformando-a em objetidade. A ciência corresponde a esta regência objetivada do real à medida que, por sua atividade de teoria, ex-plora e dis-põe do real na objetidade. A ciência põe o real. E o dis-põe a pro-por-se num conjunto de operações e processamentos, isto é, numa sequência de causas aduzidas que se podem prever. Desta maneira, o real pode ser previsível e tornar-se perseguido em suas consequências. É como se assegura do real em sua objetidade. Desta decorrem domínios de objetos que o tratamento científico pode, então, processar à vontade. A representação processadora, que assegura e garante todo e qualquer real em sua objetidade processável, constitui o traço fundamental da representação com que a ciência moderna corresponde ao real. 0 trabalho, que tudo decide e que a representação realiza em cada ciência, constitui a elaboração que processa o real e o ex-põe numa objetidade. Com isto, todo real se transforma, já de antemão, numa variedade de objetos para o asseguramento processador das pesquisas científicas. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 48)
Heidegger
E o que é a “lógica”?
A lógica é um “imperativo, não destinado ao conhecimento do verdadeiro, mas a dispor e gerir um mundo que para nós deve significar o mundo verdadeiro” (nº. 516; 1887). Aqui o lógico é concebido enquanto comando e uma forma de comando, quer dizer enquanto um “instrumento” da Vontade de poder. Eis uma declaração ainda mais decisiva: “A lógica não procede da Vontade de verdade” (nº. 512; 1885). Ficamos estupefatos. A verdade segundo o próprio conceito de Nietzsche é bem aquilo que é estabelecido e solidamente estabelecido e não obstante, a lógica não resultaria da vontade de estabelecer solidamente, de tornar estável? Segundo o próprio conceito de Nietzsche ela só poderia proceder da vontade de verdade. Se Nietzsche declara de pronto: “A lógica não procede da vontade de verdade”, é que ele entende aqui por engano a verdade em um sentido diferente: não no seu sentido próprio, segundo a qual ela seria uma espécie de erro, mas no seu sentido tradicional segundo a qual a verdade significa: a concordância do conhecimento com as coisas e o real. (HEIDEGGER, Nietzsche II, 1961/1971, p. 149)
Heidegger
Porque a ciência moderna é uma teoria neste sentido, adquire importância decisiva em toda a sua observação o modo de tratar da ciência, ou seja, a maneira de ela proceder, em suas pesquisas, com vistas ao asseguramento processador, numa palavra, o seu método. Uma frase de Max Planck diz: "real é o que se pode medir". Isso significa: a decisão do que deve valer, como conhecimento certo para a ciência, no caso para a física, depende da possibilidade de se medir e mensurar a natureza, dada em sua objetidade e, em consequência, das possibilidades dos métodos e procedimentos de medida e quantificação. Esta frase de Max Planck só é correta por expressar algo que pertence à essência da ciência moderna e não apenas das ciências naturais. 0 cálculo é o procedimento assegurador e processador de toda teoria do real. Não se deve, porém. entender cálculo em sentido restrito de se operar com números. Em sentido essencial e amplo, calcular significa contar com alguma coisa, ou seja, levá-la em consideração e observá-la, ter expectativas, esperar dela alguma outra coisa. Neste sentido, toda objetivação do real é um cálculo, quer corra atrás dos efeitos e suas causas, numa explicação causal, quer, enfim, assegure em seus fundamentos, um sistema de relações e ordenamentos. Também a matemática não é um cálculo com números para se obter resultados quantitativos. A matemática é um cálculo que, em toda parte, espera chegar à equivalência das relações entre as ordens por meio de equações. E por isso mesmo "conta" antecipadamente com uma equação fundamental para todas as ordens possíveis. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 49-50)
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Decisiva é a transformação do espírito em INTELIGÊNCIA: qual seja a simples habilidade ou perícia no exame, no cálculo e na avaliação das coisas dadas, com vistas a uma possível transformação, reprodução e distribuição em massa, sujeita em si mesma à possibilidade de uma organização, o que não vale para o espírito. Todo o literatismo e estetismo são apenas uma consequência ulterior e uma degenerescência do espírito falsificado em inteligência. O mero engenho, o apenas espirituoso, é aparência de espírito e a tentativa de esconder a sua ausência. (HEIDEGGER, Introdução à Metafísica, 1952/1966, p. 89)
Heidegger
É por isso que também se torna necessária a formulação do que até agora foi silenciado: situa-se este pensamento já na lei de sua verdade se apenas segue aquele pensamento compreendido pela "lógica", em suas formas e regras? Por que põe a preleção esta expressão entre aspas? Para assinalar que a "lógica' é apenas uma das explicações da essência do pensamento; aquela que já, o seu nome o mostra, se funda na experiência do ser realizado pelo pensamento grego. A suspeita contra a lógica - como sua consequente degenerescência pode valer a logística - emana do conhecimento daquele pensamento que tem sua fonte na experiência da verdade do ser e não na consideração da objetividade do ente. De nenhum modo é o pensamento exato o pensamento mais rigoroso, se é verdade que o rigor recebe sua essência daquela espécie de esforço com que o saber sempre observa a relação com o elemento fundamental do ente. O pensamento exato se prende unicamente ao cálculo do ente e a este serve exclusivamente. Qualquer cálculo reduz todo numerável ao enumerado, para utilizá-lo para a próxima enumeração. O cálculo não admite outra coisa que o enumerável. Cada coisa é apenas aquilo que se pode enumerar. O que a cada momento é enumerado assegura o progresso na enumeração. Esta utiliza progressivamente os números e é, em si mesma, um contínuo consumir-se. O resultado do cálculo com o ente vale como o enumerável e consome o enumerado para a enumeração. Este uso consumidor do ente revela o caráter destruidor do cálculo. Apenas pelo fato de o número poder ser multiplicado infinitamente e isto indistintamente na direção do máximo ou do mínimo, pode ocultar-se a essência destruidora do cálculo atrás de seus produtos e emprestar ao pensamento calculador a aparência da produtividade, enquanto, na verdade, faz valer, já antecipando e não em seus resultados subsequentes, todo ente apenas na forma do que pode ser produzido e consumido. 0 pensamento calculador submete-se a si mesmo à ordem de tudo dominar a partir da lógica de seu procedimento. Ele não é capaz de suspeitar que todo o calculável do cálculo já é, antes de suas somas e produtos calculados, num todo cuja unidade, sem dúvida, pertence ao incalculável que se subtrai a si e sua estranheza das garras do cálculo. O que, entretanto, em toda parte e constantemente, se fechou de antemão, às exigências do cálculo e que, contudo, já a todo o momento, é, em sua misteriosa condição de desconhecido, mais próximo do homem que todo ente, no qual ele se instala a si e a seus projetos, pode, de tempos em tempos, dispor a essência do homem para um pensamento cuja verdade nenhuma "lógica" é capaz de compreender. Chamemos de pensamento fundamental aquele cujos pensamentos não apenas calculam, mas são determinados pelo outro do ente. Em vez de calcular com o ente sobre o ente, este pensamento se dissipa no ser pela verdade do ser. Este pensamento responde ao apelo do ser enquanto o homem entrega sua essência historial à simplicidade da única necessidade que não violenta enquanto submete, mas que cria o despojamento que se plenifica na liberdade do sacrifício. (HEIDEGGER, Coleção Pensadores, 2000, p.70-71)
Heidegger
A lógica contemporânea mostra uma nova distorção do problema. Não apenas é a metafísica reduzida à lógica, mas a lógica é reduzida à matemática. A lógica contemporânea é simbólica, lógica matemática, e assim uma lógica que segue o método matemático. (HEIDEGGER, The Metaphysical Foundations of Logic, 1978/1984, p. 106)
Heidegger
Pode-se apreender formalmente o conceito referencial que constitui o mundo como significância no sentido de um sistema de relações. Deve-se, porém, atentar para o fato de que tais formalizações nivelam de tal modo os fenômenos que, em remissões tão "simples" como as que a significância abriga, perdem o conteúdo propriamente fenomenal. Essas "relações" e "relatas" do ser para, da função, do estar com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal, resistem a toda funcionalização matemática; também não são algo pensado, posto pela primeira vez pelo pensamento, mas remissões em que a circunvisão da ocupação sempre se detém como tal. Esse "sistema de relações" constitutivo da mundanidade dissolve tão pouco o ser do manual intramundano que, na verdade, é só com base na mundanidade do mundo que ele pode descobrir-se em seu "em si substancial". E somente quando o ente intramundano em geral puder vir ao encontro é que subsiste a possibilidade de se tornar acessível o que, no âmbito deste ente, é simplesmente dado. Com base neste ser simplesmente dado é que se podem determinar "propriedades" desses entes em "conceitos de funções matemáticas". Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância. (HEIDEGGER, Ser e Tempo, 1986/2006, p. 139)
Heidegger
Mnemósina, a filha do Céu e da Terra, se torna, como esposa de Zeus, durante nove noites a Mãe das Musas. Jogo e Musica, Dança e Poesia pertencem ao seio de Mnemósina, à Memória. É claro que este termo designa outra coisa que a única faculdade, determinável pela psicologia, de reter o passado na representação. Memória pensa naquilo que tem de ser pensado. Mas, sendo o nome da Mãe das Musas, “Memória” não significa um pensar qualquer de não importa que pensável. Memória é o recolhimento do pensar sobre aquilo que em tudo desejaria ser já guardado no pensar. Memória é o recolhimento do pensar fiel. Ela protege próximo a ela e ela guarda consigo aquilo que é necessário pensar de antemão de tudo aquilo que é e que se revela à nós como o ente, como sendo o recolhimento do ser (als Wesendes, Gewesendes). Memória, a Mãe das Musas! O pensar fiel àquilo que demanda ser pensado é no fundo de onde soa a poesia. A poesia são então as águas, que por vezes escoam às avessas em direção à fonte, em direção ao pensar como pensar fiel. Tanto quanto crermos poder alcançar da lógica um esclarecimento sobre isto que é a poesia, tanto quanto não poderemos nos por a pensar à maneira pela qual toda poesia repousa no pensar fiel. Tudo que encanta na poesia brota do “recolhimento junto a...” que é aquele do pensar fiel. (HEIDEGGER, Qu’appelle-t-on penser ?, 1954/1959, p. 29-30)
Heidegger
Por conseguinte, poderia ser que aquilo que faz mais pensar fosse alguma coisa do alto, talvez mesmo o mais alto que seja para o homem, se pelo menos o homem habite este ser que ele é enquanto pensa, quer dizer enquanto é requerido pelo pensado, pois, com efeito, sua essência repousa na Memória. (HEIDEGGER, Qu’appelle-t-on penser ?, 1954/1959, p. 37)
Heidegger
Poderíamos acreditar que a interpretação técnica da língua como instrumento de comunicação e de informação é evidente por si própria, na medida em que a técnica se compreende a si mesma como um instrumento e apresenta todas as coisas sob esse aspecto. Mas à luz do que acaba de ser discutido sobre o que é próprio da técnica e da língua, esta apresentação fica superficial. Pelo contrário, é preciso perguntarmo-nos: em que medida o que é próprio da técnica moderna acaba por se impor à língua levando-a a sua refundação em pura informação, de tal maneira que ela provoca o homem, quer dizer, obriga-o a assegurar a energia natural e a colocá-la à disposição? Em que medida há, além disso, na própria língua, a exterioridade que oferece a tomada e a possibilidade de uma refundação em língua técnica, isto é, em informação? (HEIDEGGER, Langue de tradition et langue technique, 1989/1990, p. 36)
Heidegger
Mas o dizer como mostrar pode igualmente ser concebido e efetuado de tal maneira que mostrar significa somente: dar sinais. O sinal torna-se então uma mensagem e uma instrução acerca de uma coisa que, em si mesma, não se mostra. Um som que retine, uma luz que brilha, não são, tomados em si próprios, sinais. Só são produzidos e impostos como sinais se aquilo que devem significar a cada vez é antecipadamente admitido, se aquilo é dito. Pensemos nos sinais em morse, que são limitados ao ponto e ao traço e nos quais o número e a ordem são associados às sonoridades da língua falada. O sinal particular só pode ter a cada vez uma de duas formas, ponto ou traço. A série dos sinais é neste caso reconduzida a uma série de decisões sim-não. As máquinas são com-postas à produção de tais séries: estas, graças aos fluxos de corrente e aos impulsos elétricos, seguem este modelo abstrato de produção de sinais e fornecem as mensagens correspondentes. Para que tal espécie de informação se torne possível cada sinal deve ser definido de maneira unívoca; da mesma maneira cada conjunto de sinais deve significar de maneira unívoca um enunciado determinado. O único caráter da língua que subsiste na informação é a forma abstrata da escrita, que é transcrita nas fórmulas de uma álgebra lógica. A univocidade dos sinais e das fórmulas, que é necessariamente exigida por este fato, assegura a possibilidade de uma comunicação certa e rápida. (HEIDEGGER, Langue de tradition et langue technique, 1989/1990, p. 38-39).
Heidegger
Hoje em dia nada mais vem ou se forma em nós. Por que? Porque nos faltam as possibilidades de um comércio de pensamento como uma tradição que nos desperte e nos ajude, porque em lugar de tal comércio nós deixamos nossa língua para os procedimentos das maquinas eletrônicas a pensar e a calcular: este último evento vai conduzir a técnica e a ciência contemporâneas a métodos inteiramente novos e também a imensos sucessos, métodos e sucessos que verdadeiramente porão fim ao pensamento meditativo, como a uma coisa inútil e cuja consequência pode-se bem passar sem. (HEIDEGGER, Le principe de raison, 1957/1962, p. 66)
Heidegger
A técnica mecanizada é até aqui o prolongamento mais visível da essência da técnica moderna, a qual é idêntica a essência da metafísica moderna. (HEIDEGGER, Chemins qui ne mènent nulle part, 1949/1962, p. 69)
Heidegger
Quanto a palavra imagem, devemos pensar na reprodução de alguma coisa. Um Weltbild seria portanto como um quadro do ente em sua totalidade. No entanto, Weltbild diz mais. Pois assim entendemos o Mundo (Welt) ele mesmo, o ente em sua totalidade, assim como nos impõem suas diversas ordens de medidas. Imagem (Bild) designa, por conseguinte, não um simples decalque, mas o que se faz entender na forma alemã: Wir sind über etwas im Bilde (literalmente: “somos quanto a qualquer coisa, na imagem”, ou seja, “somos ou estamos no fato desta coisa”). (…) Fazer a ideia de alguma coisa de maneira a ser fixada, é portanto pôr o ente ele mesmo diante de si para ver de que se trata, e tendo assim o fixado, o manter constantemente nesta representação. (…) Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que ele quer por conseguinte levar e ter diante de si, aspirando assim a pará-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. Weltbild, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa portanto uma ideia do mundo, mas o mundo ele-mesmo apreendido como aquilo que se pode “ter-ideia”. O ente em sua totalidade é portanto tomado agora de tal maneira que ele é só e verdadeiramente ente na medida em que é parado e fixado pelo homem na representação e na produção. (…) O ser do ente é agora buscado e descoberto no ser-representado do ente. (HEIDEGGER, Chemins qui ne mènent nulle part, 1949/1962, p. 117)
Heidegger
Em que medida isso surge da metafísica moderna? À medida que se pensa a entidade dos entes enquanto vigência para a representação seguradora. Entidade é agora objetividade. A questão da objetividade, da possibilidade de oposição (a saber, do re-presentar que assegura e calcula) é a questão da possibilidade de conhecer. (HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 64)
Heidegger
Há um processo em curso que faz com que a representação da linguagem não seja determinada a partir dela mesma, do falar um com o outro, mas sim pela maneira como o computador fala e calcula isto. A equiparação da linguagem com o computador. Este destino da Física, que chegou agora à Física Nuclear, inquieta os pensadores entre os físicos, visto que eles veem que o homem, colocado neste mundo construído pela Física Nuclear, não tem mais acesso ao mundo. Agora só continuam acessíveis a calculabilidade e o efeito. Nesta situação tentamos nos ajudar, por exemplo, com a palestra que Heisenberg fez sobre Goethe e as ciências naturais modernas. Ali ele procurou algo totalmente insustentável, ou seja, mostrar que aquilo para o que se dirige a Física, isto é, a fórmula universal, a recondução a um princípio simples, corresponderia ao fenômeno originário de Goethe ou às ideias platônicas. Heisenberg não reparou que uma fórmula matemática, por mais simples que seja, é algo fundamentalmente diferente do fenômeno originário de Goethe. Mas o problema de Heisenberg é ainda maior, ele não consegue colocar a sua Física em relação vital com o homem. Outros físicos ligam a ciência à fé.
Falar é dizer = mostrar = deixar ver = comunicar e ouvir de modo correspondente, subordinar-se e adaptar-se a uma exigência, corresponder. (HEIDEGGER, Seminários de Zollikon, 1987/2001, p. 228)
Heidegger
Na Metafísica moderna, a esfera da interioridade invisível se determina como a região da presença dos objetos calculados. Esta esfera, Descartes a caracterizou como consciência do ego cogito.
Quase ao mesmo tempo em que Descartes, Pascal descobre, antítese da lógica da razão calculante, a lógica do coração. O interior e o invisível da dimensão do coração é não somente mais interior que a interioridade da representação calculante – e, por isto, mais invisível – mas leva ao mesmo tempo mais longe que a região dos simples objetos produtivos. (...) No interior desta consciência incomum reside um espaço intimo no interior do qual, para nós, toda coisa superou o numérico do cálculo, e pode assim, livre de limitações, se expandir no todo sem entraves do aberto. Tal supérfluo sobre-numérico nasce, quanto à sua presença, na interioridade e invisibilidade do coração. (HEIDEGGER, Chemins qui ne mènent nulle part, 1949/1962, p. 367-368)
Heidegger
Mas como haveríamos de encontrar a luminosidade do pensamento, se não nos deixamos conduzir pelo amplo caminho do pensamento e, assim, aprendemos a pensar no vagar?
Talvez a questão seja mais primária. Talvez precisemos primeiro aprender a aprender, e aprender a poder aprender. E, talvez, seja ainda mais primária. Talvez precisemos primeiro estar prontos para aprender a aprender. O que é isso, aprender? Uma só palavra não é capaz de responder, mas somente de esclarecer: aprender é apropriar-se com saber de algo a partir de uma indicação e assinalamento, a fim de presentear esse algo como propriedade do saber, sem perdê-lo ou empobrecê-lo. Aprender diz respeito a um tornar próprio mediante o saber, uma propriedade do saber que não nos pertence, mas à qual nós pertencemos. Precisamos primeiro aprender a aprender. Tudo deve ser muito primário, muito cheio de espera, muito lento, para que, enquanto o único envio de destino, o verdadeiro possa vir verdadeiramente ao nosso encontro e ao encontro de nossos sucedâneos, sem que seja preciso calcular quando, onde e em que fisionomia isso ocorrerá com propriedade. Deve surgir uma geração de lentos, para que a pressa exagerada da vontade de produção e a corrida das prestações e apontamentos, para que a cobiça de informações imediatas e soluções baratas não nos precipitem num vazio ou nos desviem para a fuga, em opiniões e crenças apenas derivadas, que nunca podem constituir origem, unicamente subterfúgio. (HEIDEGGER, Heráclito, 1994/1998, p. 202-203)
Heidegger